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PARADA DO CORGO

viveiro em 1987


CONTO DE NATAL

por cunha ribeiro, Quinta-feira, 05.12.13

 

É dia de Consoada. Junto à lareira, Maria do Amparo conta aos seus netos a história mais bela da sua vida.

 

 Eu tinha seis anos de idade. Vivia aqui, nesta pequena aldeia de Trás Os Montes. Sempre aqui vivi, empoleirada no alto desta montanha, onde, antigamente, nevava todo o Inverno. Ouvia falar em montras, em luzinhas de Natal, em bolos rei, em amêndoas de muitas cores… Havia noites em que tudo isso me parecia verdade. Chegava a poder tocar-lhes… A saborear as amêndoas … provar um pedacinho de bolo rei… Mas, ao acordar, era mais um sonho, apenas. Apesar disso, sempre a mesma alegria, a mesma boa disposição. Sempre a cantarolar sempre a correr, sempre a saltar. `Quantas vezes descalça por aqueles caminhos cheios de pedregulhos, sem me queixar, pois os sapatos que tinha eram pra ir à missa, ao domingo, e para os dias de festa. Brincava a construir casinhas com pedrinhas, paus e ervas que encontrava nos caminhos; adorava ficar tempos sem fim a apreciar o corre-corre desses bichinhos minúsculos e pretos, as formigas. Não tinha bonecas pois a única que o vosso bisavô me deu repartia-a com a minha irmã, e um dia o nosso vizinho Joãozinho, quando brincava com uma fisga, tentando acertar na Joaninha (nome que dei à boneca) estragou-a.


A minha mãe, Eduarda, era ainda menina e moça com quinze anos de idade quando casou com um rapaz de dezoito. Poucos dias depois de eu ter nascido, o meu pai, António, rapaz muito aprumado, alto e forte, foi chamado a cumprir o serviço militar, para “defender aquelas terras portuguesas de Além-mar”. Tocou-lhe Macau, para onde foi por mar e onde chegou cinquenta e dois dias depois.


Tempos difíceis, de muita pobreza, em que não havia liberdade e estudar era coisa daqueles que tinham “posses”, o que não era o caso da nossa família. Com o meu pai na tropa e com duas filhas para criar, a minha mãe, Eduarda, era obrigada a trabalhar muito para o nosso sustento e para termos algum conforto. Ia sempre para a apanha da amêndoa, para as vindimas, e, no rigoroso Inverno, ia para a monda e para a apanha da azeitona, e tudo mais que ela pudesse fazer. Levava-nos sempre com ela, colocava-nos junto de uma fogueira que nos aquecesse um pouco o narizito e os deditos roxos, da geada, e toca a trabalhar. Como nós éramos a luz dos seus olhos, ainda lhe sobrava tempo para, com qualquer trapinho confeccionar a roupa que nos vestia, sempre de igual, como se de duas gémeas se tratasse.


Entretanto, chegou mais um Natal. Estávamos as três sentadas em frente à lareira, com o prato no regaço, a comer batatas com couve e bacalhau e um pouquinho de arroz doce feito de propósito para a ocasião. Havia também uma travessa de aletria, o meu melhor petisco de sempre! Era oferta da tia Graça que, sabendo que o meu pai andava lá fora a lutar pela Pátria, e os cobres não abundavam, de vez em quando nos fazia uma visita levando um ou outro miminho. Pela Páscoa levava-nos sempre um folarzinho, bem tostadinho.


  Quando deu a meia noite, na torre da Igreja, estávamos as três na missa do galo. No fim, saímos, e viemos a pé escondidas pelo manto escuro da noite, desde a Igreja até à  aldeia. Mas antes de regressarmos a casa, passámos pelo tição - uma fogueira de grandes troncos que era hábito fazer-se na noite de Consoada, no largo em frente à capela, e que ardia durante muitos dias, por vezes até ao Ano Novo.


Já em casa, antes de nos deitarmos, levámos, como sempre fazíamos, na noite de consoada, os chinelitos de agasalho para junto da chaminé. Dormimos, sonhámos com prendas, com o Pai Natal de saco cheio às costas, e com o Menino Jesus.


De manhã, lá fomos nós, a correr, espreitar…no nosso chinelo estavam alguns bombons, daqueles que custavam meio tostão e também um par de meias, e um lenço. Sorte, apesar de tudo. Havia outras crianças que não encontravam nada no sapatinho.


 

Contentes com o que tínhamos encontrado, fomos ter com a nossa mãe e enchemo-la de beijos, pois vimo-la muito triste, com o pensamento muito longe…Os nossos beijos, o nosso carinho tentavam compensar a saudade que lhe ia na alma…

 

Estávamos as três naqueles enleios quando ouvimos bater à porta. Eu, que era a mais traquina, saltei da cama e fui abrir. Embora a minha mãe sempre me recomendasse que não se devia abrir, sem primeiro perguntar quem era. Com o coração a saltar-me do peito, num ímpeto, escancarei a porta. Olhei, e fiquei estarrecida com o que vi. À minha frente, um gigante, uma figura imponente dum homem. Tão parecido com o meu pai! Só o conhecia pelas  fotografias que minha mãe me mostrara, mas era tão igual a ele! Será mesmo o meu pai?! Perguntei, atarantada, sem mexer os lábios, sem pronunciar um som. Mas o meu pai não tinha bigode, pensei.

Minha mãe demorou um pouco porque ficou a vestir-se. Cerca de um minuto depois, irrompeu do quarto, já vestida, em passos rápidos, pelo corredor, na direção da entrada.

- António! Exclamou.

Nesse instante senti uma mola debaixo dos pés. Saltei para o colo robusto e alto de meu pai que me agarrou e beijou com sofreguidão.


 

Seguiram-se abraços e beijos efusivos da mana e da mãe. Como uma grafonola não mais se calou, enquanto sentadas à lareira, desembrulhavam algumas pequenas lembranças que meu pai tinha trazido. Entre elas brilhou um pequeno radio vermelho que nós jamais esquecemos.

 

 

E foi assim, já com os olhos marejados de lágrimas, que Maria do Carmo contou aos netos e bisnetos, que muito atentos e interessados a escutavam, a história em que o pai, que não conhecia, mas que ela sentia ser seu, regressou da tropa para tornar aquele natal, o dia mais feliz da vida dela.


FCR

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