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PARADA DO CORGO

viveiro em 1987


Valores

por cunha ribeiro, Domingo, 31.05.15

Passamos anos e anos na vida, sem darmos por certas verdades. Releio Miguel Torga que, como sabem, foi médico. Aliás um excelente médico (especialista) do povo. Mas o homem que hoje se admira não é o médico, e sim o escritor.

Miguel Torga, como médico, não enriqueceu. Se quisesse enriquecia, ninguém deverá ter dúvidas disso. Como escritor, enriqueceu, e muito. Não em haveres, não em dinheiro... enriqueceu, sim, o nome da família com a herança de uma obra literária única; enriqueceu a aldeia em que nasceu com a sua personalidade ímpar; enriqueceu Trás Os Montes com o retrato fiel que lhe fez e emoldurou com talha dourada feita de prosa e poesia.

 

FCR

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às 10:37

JUVENTUDE PERIGOSA

por Francisco Gomes, Domingo, 31.05.15

O Brasil é o único País do mundo, com um contingente de jovens, de dar respeito. São aproximadamente 30 milhões, entre 15 e 25 anos. Nenhum outro País pode apresentar um contingente tão significativo. Isto  poderia ser um imenso privilégio, se ao mesmo tempo não fosse um enorme perigo.

Os governos que já passaram, bem como o que temos hoje, nunca deram importância para este facto, por isso, nunca foram desenvolvidas políticas de apoio e amparo à Juventude. As Casas de Correção para Menores Infratores, são poucas e as que existem já estão superlotadas. Não existem Cursos Profissionalizantes. suficientes, para atenderem a todos. As Escolas de Segundo Grau, também são insuficientes para acolher a demanda. Por isso, uma enorme leva de jovens, não estudam e nem trabalham. Ajuntam-se em grupos, perambulam pelas ruas da cidade, fazendo assaltos e provocando badernas. Os Bairros mais visados, são aqueles da Classe Média Alta, como Lagoa, Ipanema, Leblon. Em volta da Lagoa, o local do Rio de Janeiro que o Imposto é mais alto, existe uma Ciclovia, onde as pessoas caminham e pedalam as suas bicicletas. Mas são atacadas pelos Menores, ficam sem as Bicicletas e tudo o que carregam de valor. O pior, é que agora deram para atacar com facas e já morreram muitas pessoas a facadas.

No ano de 2014, foram mortas em assaltos, na cidade do Rio de Janeiro, 210 pessoas. Este ano de 2015, nos primeiros quatro meses, já foram 186. Na semana passada, mataram um médico Cardiologista, muito conceituado na sociedade. Foi morto a facadas, levaram a Bicicleta e o Telefone Móvel. Os menores andam armados de facas, porque pelas Leis Brasileiras, este tipo de arma ( arma branca), não é crime usar. Convenhamos, que também existe um certo relaxamento, em relação à compra de objetos roubados. O menor que esfaqueou o médico, já cometeu 15 delitos, e a polícia encontrou na casa dele, nove bicicletas roubadas.

Outro dia, perto do centro da cidade, quando atravessava um pequeno parque, fui cercado por quatro jovens que queriam a minha bolsa. A minha sorte é que estava junto de um monte de entulho de obras, comecei a tacar pedras neles, coloquei-os para correr a pedradas. Perto, estava uma viatura policial, cujos policiais assistiram a tudo. Diante das minhas reclamações, disseram-me que fosse reclamar ao Juizado de Menores, pois eles não podiam fazer nada.

Muitas pessoas tem medo de andarem a pé pela cidade. Se as autoridades não tomarem providências, não sei onde vamos parar, com esta Juventude tão Perigosa.

      

Deus abençoe a todos

 

Agostinho Gomes  Ribeiro 

 

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às 08:39

TUDO É MODERNO‏

por Francisco Gomes, Domingo, 31.05.15

Vim ao mundo numa época em que a comunicação era precária, praticamente não existia. Os telefones, para se fazer uma ligação, precisava do auxilio da telefonista e às vezes levava horas para completar. Os rádios eram umas caixas enormes, cheias de fios e de válvulas, precisavam de uma antena esticada para fora da casa, sintonizavam muito mal as emissoras, ouvia-se precariamente, era difícil entender as mensagens. Depois apareceram os rádios "Rabo-quente". As transmissões já eram melhores, eram mais pequenos, mas continuavam cheios de  válvulas e precisavam ser desligados depois de um certo tempo, senão pegavam fogo. Em 1953, começou a aparecer a Televisão, era igualmente uma caixa enorme, cheia de válvulas, precisava de uma antena enorme colocada no telhado, era tudo em preto e branco.

Por volta da década de 70, começou a aparecer a Televisão a cores. A aparência também mudou muito, era um aparelho mais bonito. Também por essa época começaram a aparecer os Computadores. Mas eram uma quantidade de caixas que ocupavam um cômodo da casa. O desenvolvimento dos meios de comunicação, foi se aperfeiçoando e por volta da década de 90, começaram a aparecer o E-mail, os telefones móveis e os faxes.

Já foi um avanço muito grande. O Email, por meio dos Computadores, era considerado o meio mais prático e mais inteligente da comunicação Virtual, porém, muito frio, para se corresponder.

Hoje sentimos que o E-mail está sendo reduzido a pó. Está sendo superado pelo Face e pelos WhatsApp e companhias. No momento ele ainda sobrevive, mas apenas para troca de mensagens. Portanto, ainda respira, mas por meio de aparelhos. Antes do E-mail acabar, já está a deixar saudades. Ele entrava sorrateiramente na nossa Caixa de Mensagens, e ficava ali quietinho, aguardando pacientemente ser lido e depois respondido. Havia todo o tempo do mundo disponível para a resposta, assim, esta era articulada e estudada.

É verdade que o E-mail, apareceu no século passado e já cumpriu fielmente o seu papel. Agora temos que nos habituar à comunicação instantânea, é um toma lá, dá cá. Está fazendo com que todos pareçam esquizofrénicos, pois temos que responder de bate pronto. Confesso que às vezes fico enrolado e nem sei como reagir aquelas coisas que escrevem para mim. Sempre procuro algum tempo mais, para dar as minhas respostas. Em certos momentos, gostaria de ser engraçado, acontece que não  consigo ser. Sou muito cauteloso naquilo que escrevo. Gosto de construir frases inteligentes e  engraçadas, só que nem sempre elas aparecem na minha memória.

 Já estou a sentir saudades do E-mail, já me deixa triste em certas ocasiões, não poder contar com ele. Foi a melhor comunicação virtual que apareceu até hoje. Isso foi ontem, porque hoje, ele está ameaçado de ser jogado nos porões do esquecimento. Mas, enquanto não chega, vamos usando, pois enquanto dura, Vida Doçura.

                                                         

Deus abençoe a todos

                                                     

Agostinho   Gomes   Ribeiro

 

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às 08:35

Charlatão

por cunha ribeiro, Sábado, 30.05.15

 

Era dia de feira em Vila Pouca:

– Este tubo, que vale doze escudos na farmácia, não custa nem dez, nem oito, nem sete, nem mesmo seis, aqui. Custa apenas cinco! Menos de metade, portanto. Barato, e a última descoberta científica do século! Ácido acetilossalicílico! Façam a fineza de ver…

E só mesmo um cego é que não via.

– Produtos "Balsemão" ! Ninguém se esqueça: Balsemão! E a propósito: vou contar-lhes uma rica piada.

Os que já faziam roda, arrebitavam a orelha; os que andavam na feira e passavam ali, paravam e ficavam pasmados com tanta lábia, a ouvir. No fim todos se riam, que a coisa não era para menos.

– No período da guerra, ia eu sossegado da vida na carripana que ali está e apareceu-me de repente a polícia. – Que leva o senhor na furgoneta? – perguntou, carrancudo. – Produtos Balsemão – respondi, na minha inocência. – Abra! Abri, e mostrei-lhe os meus quatro filhos, que iam dentro, a dormir…

Tempos de miséria, só Deus sabia com que vontade as gentes da aldeia vinham vender, por qualquer preço, uma ovelha, um porco criado a caldo, ou um bezerro que tanto tinha custado criar.

 Por isso era um alívio perder meia hora ali a ouvir aquelas piadas ditas com tanta lábia.

Não pensasse ele  que acreditavam nas aldrabices que dizia do seu produto! Mas, enfim, como eram só dez tostões…

E lá voltava o paleio:

– Vou agora mostrar à digna assistência, a título de curiosidade, a autêntica víbora da fortuna! A autêntica, reparem bem. Porque, infelizmente, até nestas coisas sérias e sagradas há vigaristas. Mas esta, garanto a V. Ex.as

E ele a dar-lhe com a excelência! Que trampolineiro!

Mesmo adivinhando a muda desconfiança, o homem do seu palanque era todo sorrisos. Quem é que não gosta uma vez na vida de ser tratado por excelência?! E a prova é que a dado momento um dos ouvintes, com um baraço a segurar as calças, e uma boina trauliteira descaída pela nuca,  perdeu a cabeça e comprou por trinta escudos, sem hesitar, aquela «cobra milagrosa».

– Bem burro! – não se conteve uma senhora, cheia de pena de não ter sido ela.

– Era única, minha senhora! Aproveitasse! – dizia, a entregar a cobra enfrascada e a tirar já nova maravilha das profundezas do baú.

–  É uma maravilha para combater a sarna, a urticária, a psoríase, os furúnculos – tudo quanto uma pele humana possa conceber –, é um ar que lhe dá. Reparem: pega-se na ulceração, um bocadinho de pomada em cima, ao de leve e pouca, que é para poupar, cobre-se com um farrapinho, e não se pensa mais nisso! Cinco tostões apenas! Só a caixa vale quinze!

Até um homem de gravata que ali estava estendeu o braço àquela pechincha.

– Tu para que é que queres isso?! – perguntou-lhe, espantado, um colega.

– Sei lá!

Não prestava, diziam quase todos. Mas aqueles olhos a fuzilar o mal e a curá-lo, aquele rato branco de quando em quando parado e atento às palavras do dono, aquela mão erguida ao alto como um destino, dobravam a vontade do mais pintado.

Aldrabão!... – gritavam interiormente os menos crédulos. Pois sim! Viessem ouvi-lo. Esperassem um instantinho, e então se veria.

– Eu sei que há muitas pessoas que me chamam charlatão. Coitadas! Onde pode chegar a ignorância humana! Ora vejamos…

E trapaceiros, daí a nada, passavam a ser os indivíduos honrados que todos os da roda consideravam pessoas de bem. Agora ele?! Pelo amor de Deus! Quem é que tinha a coragem de vir assim honestamente explicar os factos, receber sugestões, pôr-se, numa palavra, em contacto directo com a massa dos humildes? Charlatão! Sempre a mesmíssima coisa! Sempre a costumada ingratidão por quem sabe!

- Conhecem a anedota, não é verdade? Numa festa do Minho, cheia de animação, um rapazito subia a um mastro ensebado. Por acaso, estavam presentes um francês, um inglês e um português. O francês aplaudia, apenas; o inglês não aplaudia e, disfarçadamente, ajudava o garoto, se o via desanimar; o português, esse, berrava como um danado: – Força, força! Mas quando o cachopo ia agarrar a prenda, puxou-lhe por uma perna!

 Ora por essas e por outras é que ele era charlatão. Queriam-lhe puxar também por uma perna. Felizmente que não se deixava vencer às primeiras, e tinha a consciência tranquila. Dava o mundo inteiro por testemunha da sua isenção e da sua honradez…

– Sim, porque eu sou um cavalheiro na verdadeira acepção da palavra! Ou duvidam?

O silêncio de todos bastava-lhe como resposta. Simplesmente, aquele universal acordo quanto à sua dignidade moral e honestidade profissional tocava-lhe as fibras mais sensíveis do coração. Era um sentimental. E a esse respeito, até para amenizar a conversa, ia abrir-se com o seu fiel auditório, com o bom e generoso povo da sua terra. Ia contar o que nunca contara, nem gostava até de recordar. Mas, enfim, já agora… Porque, debaixo daquela aparência de pessoa alegre, bem disposta e saudável, tinha tido também os seus dissabores e as suas aflições… Justamente por ser um emotivo, um banana!

Um do nCovêlo, presente, ouvira-lhe o mesmo palavreado em Vila Real. Apesar disso, ficou. Sempre queria ver se a história a seguir seria a mesma.

– Aqui há vinte anos, acabara eu  de chegar de Paris, quando de repente, numa rua de Lisboa… Quê?! O senhor não acredita que eu fui a Paris?! Olha, olha, não acredita! Sou um homem muito viajado, santinho! Está aqui o meu passaporte. Queira examinar… Faça favor.

Tinha de provar tudo. Como um professor atento à disciplina e às dúvidas da turma, mal alguém se mexia impaciente ou mostrava nos olhos uma névoa de incredulidade ou de incompreensão, estendia-lhe o documento elucidativo ou a palavra iluminada, a ajudá-lo! Só quando todo o auditório respirava entendimento e aceitação, sossegava e prosseguia.

– Está convencido? Muito bem. Dizia eu então que ia a passar numa rua de Lisboa, quando de repente vejo à janela dum sexto andar uma linda rapariga. Alto! – gritei, entusiasmado. – Aquela cachopa convém-me! E como sempre fui um rapaz desembaraçado, pelas escadas acima parecia um galgo. Cheguei lá com o coração a sair-me pela boca. Porque, parecendo que não, este meu relógio não é de fiar… Muitas emoções seguidas. Enfim, misérias do corpo humano. Segue-se que bati à porta, vieram abrir, e aqui é que foram elas! – Desejava alguma coisa? Os senhores estão a ver a cena?! Os senhores representam bem na imaginação o meu encravanço?! Há horas na vida!... Palavra de honra! Bem, mas a gente não deve desistir às primeiras. Enchi-me de coragem e disse cá para comigo: Balsemão, quem não se arriscou, nem perdeu nem ganhou! E zás: – Queria falar com a menina. – Diga-me o nome, faz favor. – Carlos Balsemão Pimentel da Silva, um seu criado. – Tenha a bondade de entrar e de esperar um instantinho. E que é que o respeitável público cuida que aconteceu? Que fui corrido a pontapés? Que fui preso? Nada disso. De alguma coisa me há-de valer a experiência. Um mês depois estava casado com a tal pequena.

Realmente não se podia deixar de aprovar com um sorriso tanta ousadia e desfaçatez.

– Entre os presentes há certamente quem esteja a pensar nos inconvenientes dum casamento assim. E têm toda a razão… Eu que o diga!...

O do Covêlo, pela calada, ia-o observando. Até ali a história era exactamente a mesma. Quanto à tristeza que lhe ensombrava o rosto, não podia ser fingida. Certas coisas não se fingem… Não. Aquilo não podia ser tudo mentira…

– Pois é verdade! Casamentinho excomungado! Eu a pensar que ia buscar a felicidade ao tal sexto andar, que tinha tido, ao passar na rua, o palpite da sorte grande, e sai-me um bilhete branco!

O do Covêlo sorriu à imagem.

– Bem, mas um fulano quando compra a burra não lhe apalpa o fígado. Fia-se na cor dos olhos… E já agora, que falei em fígado, não me vá depois esquecer…

E começou então a cura universal da icterícia, com um chá maravilhoso de folhas duma planta secreta, cujo nome lhe fora revelado por um landim que conhecera numa das suas numerosas viagens à África…

Desta vez, porém, a assistência ficou insensível.

– Não?! Não há nenhum hepático, aqui?! Mas isso é um milagre! Isso é um fenómeno! Nenhum dos presentes tem dores na barriga, à direita, ou sente enjoos, ou aparece com a língua saburrosa, de manhã?

O mesmo silêncio desconfiado. Icterícia! O homem parecia parvo! Chá dos pretos, de mais a mais! Quem é que ia agora meter porcarias daquelas no corpo?! E logo para o fígado! Livra! A história, se a queria acabar, e viva o velho! Uma pomadinha para a pele, vá lá com mil diabos! Mas drogas para o fígado!...

De segundo a segundo a onda de indignação subterrânea ia crescendo.

Mas o timoneiro daquele barco humano conhecia o mar.

– Não há?! Pronto, não se fala mais nisso! Os meus sinceros parabéns, e podem levar uma vela a Santo Ambrósio…

Olhou a muda agitação da seara. O povinho! O patarata do Zé Pagode a congeminar! Ele tratava-lhe da saúde! Ainda tinha pulso para o dominar. Para o fazer rir ou chorar consoante lhe desse na real gana, e para lhe impingir no intervalo quantas porcarias coubessem no baú. Não queriam agora o chá da icterícia? Gramavam-no para outra vez. Tão certo como dois e dois serem quatro! Lá isso, santa paciência…

 – E vamos então continuar a nossa história. A minha, afinal de contas. E um grande romance, se eu soubesse escrever! Desgraçadamente, não sei. Conto… Conto, e a maior parte das vezes a sentir que toda a gente está a duvidar de mim…

O do Covêlo continuava atento, a observá-lo.

– Pois é verdade: o raio da mulher parecia um anjo! Como tinha os olhos azuis e uma vozinha de rola, ó senhores, aquilo era como um querubim: – Carlinhos, tu não queres marmelada? Carlinhos, vamos ao cinema, vamos? Chamava-me Carlinhos, o coirão! – Mas, ó Maria da Luz, tu não vês que me faz desarranjo?! Que se não durmo não posso ir amanhã fazer a feira a Setúbal?!! – Deixa lá a feira, filho! Então tu trocas a tua Mariluz pela feira?! Estão a ver o paleio?! Era de um homem ficar doido. – Ó mulher dos meus pecados, bem sabes que temos que pensar no futuro, que é preciso trabalhar!... – Então vai… Vai, meu querido… E no dia seguinte lá ia eu. – Adeus, meu amor! Adeus… São só três dias… Tem paciência… Dá cá uma beijoca…

O fiel auditório ria da beijoca. Mas ele não se queria demorar ali.

 – Ficava em soluços ao cimo da escada. Ora, como sabem, a minha vida é de casa de Caifaz para casa de Pilatos… Estou a maçá-los?! Vejam lá! Se estou, digam, que eu mudo de assunto.

(O mesmo paleio de Vila Real ... exatamente o mesmo...)

– Não? Bem, então, se não incomodo, continuo. Em que ponto íamos nós? Ah, já sei! Falava das sucessivas deslocações a que me obriga a profissão. Muito bem! Ora eu morava, como disse, em Lisboa. Não?! Não disse? Então é que me esqueceu. Mas morava. Na mesma casa. Naquele sexto andar fatídico!... É claro que quando saía me demorava vários dias por fora. O que ainda hoje acontece, de resto. A correr o país de lés a lés, tem de ser. De Trás-os-Montes ao Algarve, parecendo que não, é longe. A minha residência actual é nas Caldas da Rainha. E como das Caldas da Rainha aqui são apenas cento e cinquenta e cinco quilómetros, em três horas ponho-me lá. Mas se tenho de me deslocar a Monção, por exemplo? Felizmente que não viajo de comboio! Utilizo exclusivamente esta maravilhosa criação do progresso – o automóvel. De contrário estava desgraçado. Mesmo assim, não posso fazer milagres! E a maior parte das vezes fico por lá. Durmo sossegado em qualquer pensãozita barata, aproveito o dia seguinte para visitar novas terras…

Uma das maneiras de tomar o pulso à assistência era divagar um pouco. Havia sempre alguém mais insofrido que protestava. E a história, assim reclamada, tinha outro sabor.

– Não interessa? Pronto, já aqui não está quem falou! Adiante. Dizia eu que na minha profissão sou muitas vezes obrigado a pernoitar fora de casa. É natural. Ora naquela data, 24 de Novembro, lembro-me como se fosse hoje, quando em Palmela dava início aos meus trabalhos, desata a chover, que qual feira nem meia feira! Parecia o dilúvio universal. Casa, Balsemão! Casinha, até que Deus Nosso Senhor nos traga sol. Eu gosto muito de sol!

Olhou o céu, como a reforçar a afirmação. Depois, cheio de dignidade, desceu novamente à terra das suas atribulações.

– V. Ex.as estão a ver a minha disposição! Cansado, desanimado, e com os meus ricos bolsinhos vazios… Mas havia uma estrela a brilhar naquelas trevas. Claro que já toda a gente adivinhou… Casadinho de fresco, de mais a mais… Bom, não há quem não goste do seu aconchego… É humano! Cheguei a Lisboa às três da manhã. E que é que os senhores calculam?

(Ria-se. Em Vila Real também se rira. Mas era um riso amarelo… Sabe Deus o que iria lá por dentro…)

– A luz do meu quarto acesa àquela hora! Subi os seis lanços da escada dum fôlego, e mais tenho o coração fraco, como já disse! Ia doido! – Ai, Balsemão, se é verdade! Ó desgraçado! Toquei a campainha, e a luz apagou-se imediatamente. – Pronto, Balsemão, não há que ver! O ombro à porta, e foi o fim do mundo!...

Olhou o efeito das suas palavras, bebeu um gole de água, e levou ao rubro, numa só frase, o calor da multidão.

– Para encurtar razões: meti três balas no corpo daquela miserável!

Fosse aldrabice, fosse o que fosse, estavam todos sem ar.

Mas ele era generoso. Limpou o suor da testa, olhou por alguns momentos a emoção colectiva, e atirou a seguir um piedoso balde de água fria na fogueira.

– Não morreu, sosseguem! Era da pele do diabo!

– E ele? – não se conteve a senhora que resmungara...

– Um covardola! Enquanto eu arrombava a porta, fugiu pelas traseiras…

(Exactamente o que respondera em Vila Real. E não… O suor que lhe escorria da testa não era do calor… A tarde até estava a refrescar…)

– Fui julgado e condenado em cinco anos de cadeia… Cadeiinha, pois então! Que cuidam? Cinco anos… Foi quanto me custou aquela olhadela para o tal andar!

Passado o calafrio do desfecho inesperado, começou a fazer-se dentro de cada um a crítica lógica da história. E alguns sorrisos incrédulos afloraram à tona de alguns rostos.

– O respeitável público não acreditou em patavina do que acabo de dizer! Está no seu direito, e faz bem. Eu cá também não acreditava, se me contassem… Mas infelizmente é verdade… Cinco anos numa penitenciária! Cuidei que nunca mais deixava de ver o sol aos quadradinhos… Ainda por cima ferra-se-me uma constipação! Ah! rapazes, que se não tenho lá este maravilhoso xarope, não sei o que havia de ser de mim! Cheguei a filosofar: – Bem, Carlos Balsemão Pimentel da Silva, coração ao largo, e tira daí o sentido. Desta vez morres mesmo. Escusas de alimentar ilusões: nunca mais voltas a fazer bem à humanidade! E se não fosse o xarope…

Não havia dúvida nenhuma que a atenção do público descera com o fim da narrativa. Aquele homem, porém, era um prodígio de tenacidade.

– É claro que os meus desânimos não tinham razão de ser! Com vinte e cinco anos estava ainda uma criança. Por isso tratei de comer e beber, cumpri a pena, divorciei-me, casei de novo, e já vou em quatro filhos… Os tais produtos Balsemão da piada que lhes contei…

Tempo perdido. O lume apagara-se na lareira. Contudo, fez ainda um derradeiro esforço.

– Asma?! O senhor?! Ó homem de Deus, e então não dizia nada?!! Se eu não reparo… Ora valha-o Nosso Senhor!

À voz de asma, instintivamente, os sãos foram-se retirando discretamente, com aquela meia hora desfeita num zum-zum inútil de cigarra.

Mas lá conseguiu vender aos que ficaram dez frascos de xarope, justamente os que restavam.

Depois deram as seis, a feira desfez-se, e a vida retomou a crua realidade habitual. Na sua carrinha o Balsemão deixou então o Toural e meteu apressado pela estrada da Figueira da Foz. A buzinar, ia ultrapassando rapidamente os fregueses, já esquecidos dele e de quantas aldrabices lhes dissera.

Só na Carrica, é que o do Covêlo, ao vê-lo passar, o reconheceu, lhe tirou o chapéu, e soltou num murmúrio a ternura duma palavra:
– Coitado!

 

A. Valtique ( Adaptação de um conto de M. Torga)

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às 13:14

"Facebookologia"

por cunha ribeiro, Sábado, 30.05.15

As redes sociais são uma mina para quem se interesse em analisar comportamentos humanos. Permitem tirar conclusões interessantes. Embora pudessemos abrir um leque mais vasto, vejamos apenas dois casos:

1. Há quem tenha uma página no facebook para divulgar ideias, expressar opiniões, defender princípios, e tomar partido crítico pelas opiniões de quem também divulga. 

2. Há quem esteja presente no facebook sem divulgar nenhuma ideia própria e/ou alheia. São os que pouco ou nada criticam e opinam.  Vêm quase sempre para "cuscar" o que dizem ou publicam os outros.

 

Não quero dizer com isto que os que pertencem ao primeiro tipo são melhores ou piores pessoas que os do segundo. Há de tudo como na farmácia. Quero apenas dizer que prefiro no caso concreto lidar com quem se insere no primeiro.

Porquê?

Porque à partida é gente mais transparente. Sabemos o que pensa, e muitas vezes ao que vem.

 

CR

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às 12:47

Uma imagem do Convívio de 2014 que vamos tentar não repetir em 2015

por cunha ribeiro, Sexta-feira, 29.05.15

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às 17:55

Tordos assados "à Inspector", caçados " à transmontano"

por cunha ribeiro, Sexta-feira, 29.05.15





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Sent from my Wiko JIMMY

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às 17:52

O Martelo

por cunha ribeiro, Quinta-feira, 28.05.15

 

No dia seguinte, de manhã, era o exame da quarta classe, na Vila. O A., um pouco mais novo que eu, pastoreava ali perto as ovelhas.

Nesse dia, véspera do exame, coube-me guardar duas velhas serranas, colegas de jugo e molhelha, no “Ribeiro Côvo” - uma área de pasto que um pequeno riacho rasgava do cimo ao fundo, entre o monte “Cornelho” e o cerro repleto de giesta e carqueja da Côrte do Pereira.

O exame de quarta assustava: para além de um bom domínio da escrita e de uma leitura escorreita, o examinando da época devia mostrar se era azado a manipular materiais, apresentando ao júri do exame um adereço feito por si. Desde o engaço ao arado, os rapazes,  ou do vestido de xita ao avental, havia muito por onde escolher.

Depois de uma rápida análise das minhas capacidades, conclui que eram tão básicas, que não podia acalentar grande esperança em mudar um pau de ameeiro numa coisa complicada como um carro de bois, ou um engaço. Optei sem demora por um martelo todo em madeira. Durante a tarde e quase até ao regresso, ali estive, sentado na erva, a talhar o futuro instrumento. Com a obra à beira do fim, aparece junto de mim o colega de pastoreio. Talvez picado pela curiosidade de tão rara ocupação. E ei-lo, pasmado, a mirar o martelinho que um simples guardador de vacas fazia nascer de um naco de ameeiro.

Olhei-o nos olhos e percebi uma vontade irreprimível de manusear o martelo. Dei-lho para a mão e fui procurar uma serrana momentaneamente desaparecida do meu horizonte, que encontrei deitada debaixo de um aglomerado de giestas a remoer a verdura que antes comera. Como pareciam estourar de fartas, e o sol já se escondia atrás do sabugueiro, resolvi tocá-las pra casa.

No dia seguinte, pela manhã, fui acordado, ainda cedo. Era preciso estar a tempo e horas em Vila Pouca, não fosse o diabo tecê-las. O exame estava marcado para as nove.

Ao pegar na pasta, reparo, aflito, que não tinha dentro o martelo. Procurei nos sítios mais óbvios e nada …  Pressionado pela irritação da minha mãe, e pelo nervoso que se apoderara de mim, rememorei o momento em que o meu companheiro da véspera pegava na “obra de arte” , e … fez-se luz.

Corri a casa dele. Ainda dormia. A instâncias da avó, saltou da cama, e, de gatas, meteu-se debaixo da dita, de onde tirou o martelo.

 

A. V.

 

 

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às 17:51

Concessão da gestão e exploração da Aldeia Rural da Falperra à AECORGO - "Declaração de Voto" dos senhores vereadores da oposição da CMVPA

por cunha ribeiro, Quinta-feira, 28.05.15

 ---- Com a presente proposta pretende o executivo que compõe o poder na Câmara Municipal de Vila Pouca de Aguiar ceder, gratuitamente, à AECORGO o direito de uso da Aldeia Rural, Parque de Campismo e Barragem da Falperra e zona envolvente para exploração e dinamização das instalações que as integram.

Também esta cedência é acompanhada da atribuição pela Câmara Municipal à referida Associação de uma comparticipação financeira, desta feita de:

a) € 90.000,00 com a assinatura do protocolo;

b) € 4.000,00 mensais para os restantes meses do ano de 2015;

c) € 2.000,00 mensais no ano de 2016;

d) € 1.000,00 mensais no ano de 2017;

Tudo num total de € 154.000,00 em três anos. E, com a agravante da AECORGO poder ceder a sua posição a terceiros sem o consentimento da Câmara Municipal. Acrescendo que inexiste qualquer direito a exigir indemnização por parte da Câmara Municipal à AECORGO, em caso de incumprimento desta do protocolo. Ou seja, à semelhança da proposta anterior, a Câmara Municipal prepara-se para ceder gratuitamente estas importantes instalações, agora à AECORGO, para que esta as explore livremente e receba as receitas inerentes, sem estar vinculada a qualquer indemnização caso viole o protocolo. Além disso a Câmara Municipal pretende ainda pagar à AECORGO a quantia de € 90.000,00 com a assinatura do protocolo, acrescida das quantias de € 4.000,00/mês em 2014, € 2.000,00/mês em 2016 e € 1.000,00/mês em 2017, tudo num total de € 154.000,00. 

Jamais poderíamos concordar com a proposta apresentada. Notamos que a mesma vem acompanhada de um estudo que custou ao município cerca de € 27.000,00, o qual é parco, nada aponta de novo, padece de erros crassos, e não aponta qualquer estratégia aproveitável de desenvolvimento. Já havíamos votado contra a elaboração deste estudo. Hoje, que temos os resultados do mesmo, reforçamos as nossas razões.Tendo o atual executivo municipal considerado os projetos da Aldeia Rural, Parque de Campismo e Barragem da Falperra (Village e Camping do Alvão & Lagoa do Alvão) investimentos estruturantes para o desenvolvimento da estratégia municipal, deveria, como oportunamente defendemos, ter elaborado um estudo prévio de viabilidade e ter uma estratégia, já delineada, para o desenvolvimento deste projeto. Não sucede nada disso. O que notamos é que se avançou para o projeto sem qualquer estudo e sem qualquer estratégia. 

Note-se que o custo destas infraestruturas rondará os TRÊS MILHÕES DE EUROS. Agora, na falta de estratégia e capacidade para gerir tão importante infraestrutura, mandou efetuar um estudo póstumo à pressa e transfere a sua responsabilidade para uma Associação que é próxima ao poder. Os vereadores do Partido Socialista são absolutamente contra todo este processo de concessão da exploração das instalações da Aldeia Rural, Parque de Campismo e Barragem da Falperra, à AECORGO, cujo mérito dos seus elementos não está em causa, pelas seguintes razões:

- Inexiste qualquer transparência em todo este processo; 

- Porquê a AECORGO e não o Município ou uma empresa especializada, com provas dadas e reputação no mercado?

- Qual é a experiência da AECORGO nesta área de negócios e qual a sua estrutura especializada para o desenvolvimento das atividades inerentes à cedência, ora em crise?

-Como é possível permitir que a AECORGO possa ceder a exploração das instalações a terceiros sem a respetiva autorização do município?  - Porque não é o município que faz o apetrechamento das instalações, mas, ao invés, entrega € 90.000,00 à AECORGO sem nenhum caderno de encargos específico? 

- Para que irão servir os € 64.000,00 que o município vai entregar à AECORGO durante 3 anos?

- Mais uma vez estamos perante a entrega de um equipamento muito valioso a uma Associação recémcriada, com proximidade ao poder, à qual o município vai entregar €154.000 para fazer a gestão de um bem municipal.

-Acabou a Vitaguiar, mas estamos a criar muitas Vitaguiares, muito mais dispendiosas e sem nenhum controlo municipal.

- Afigura-se-nos que, também neste particular, a Câmara Municipal está a transferir as suas responsabilidades para uma Associação que é próxima aos detentores do poder, suportando a Câmara Municipal, indiretamente, os custos dos serviços inerentes, prejudicando a transparência de forma grave e colocando em causa o sucesso de um investimento de alguns milhões de euros, o que nos leva a crer que não acredita e nunca acreditou no sucesso do mesmo.

- Os vereadores do Partido socialista, pelos motivos apresentados votam contra a presente proposta”.

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às 17:50

Vida

por cunha ribeiro, Quinta-feira, 28.05.15

IMG_20150419_162441.jpgPOR  FÁTIMA MONTEIRO

 

Sobre um constante empurrão
Procuramos na ilusão 
Seja qual for a razão 
Uma escada com corrimão 
Para encontrar a solução 
Que nos fale ao coração 
 
Para subir os degraus
Sem passar por desalentos 
Ainda que seja em vão
Porque a vida tem razão
De nos impor um senão
Em qualquer ocasião 
 
Tem destas coisas a vida 
Ora sobe ora recua 
Na qual toda a gente passa 
E ainda sobre a ameaça  
De ser de sorte ou desgraça 
 
É que  este turbilhão 
Tem pelo meio um senão 
Escondido ou não 
E que ninguém sabe a razão
 
É que se esta vida 
Fosse uma simples melodia 
Toda a gente subiria 
Os degraus se corrimão
E tudo estaria a mão 
Sem saber qual a razão!!!
 
 

 Fátima Monteiro
 
 
 

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às 08:50

Capela de Parada de Aguiar e Rua do Arco, com ef. especiais


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