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PARADA DO CORGO

viveiro em 1987


FADISTA

por cunha ribeiro, Terça-feira, 18.05.10

 

 

Já não me recordo como surgiu lá em casa. Sei que não foi obra da minha mãe ( que o ia aturando à vergastada ). Terá sido, sim, o meu pai ( mais amigo da companhia dos gatos e mesmo dos cães) a trazê-lo lá para casa.

O fadista era branco e tinha manchas de um beje-amarelado por todo o corpo.

Para além de um ser meigo, afável, e bonito, o fadista também tinha uma parte que lhe vinha da sua natureza canina: ladrava e mordia.

Não ladrava demais, só o estritamente necessário; nem mordia por aí além, só quando lhe trepavam os calos.

O fadista era, acima de tudo, um bom companheiro. Ia comigo pra todo o lado. Só não ia para a escola. Mas se fosse, era cãozinho para aprender alguma coisa. Quanto mais não fosse a estar sentadinho e calado sem perturbar a professora ( atitudes raras nos dias de hoje, com os rapazes e raparigas).

Um dia, o fadista andava a cirandar no meio das giestas e das carquejas do ribeiro covo. Cheirava aqui, cheirava ali; ora subia, ora descia; não parava o raio do bicho.

Era uma tarde quente de Julho. O sol atestava em cima da fraga onde eu me sentara. Ouvia-se ao longe, nas escaleiras do fraguedo, por detrás dos pinheirais,  o chocalhar de um rebanho de ovelhas e cabras.

Convidei o fadista a sentar-se ali ao meu lado. Veio, meio contrariado. Estava nervoso. Parecia estar à procura de uma aventura qualquer. Pareceu-me, depois, logo que cumpriu uns segundos com o seu dever de cachorro fiel ao seu dono, que andava a farejar algum coelho.

Distraí-me a olhar a profundidade verde do vale, para além das elevações dos picotos.

De repente, oiço por cima de mim, a dois ou três metros, um latido de dor lancinante.  Levanto-me, volto-me, e vejo o fadista com uma cobra meio desfeita aos seus pés.

Dei-lhe os parabéns pela proeza. E como estava na hora de regressar, descemos o monte na direcção da aldeia.

Foi já em casa que me apercebi: o fadista tinha o focinho a inchar.

Corri a informar a família do que acontecera.

“Ele salva-se ou não?” – Perguntei.

Nenhuma resposta como eu desejava. Apenas a minha avó: “ Sebo, esfreguem-lhe o focinho com sebo!”.

Corri logo à panela onde estava guardado, pra outras “merendas”,  o betume branco do porco. Esfreguei como pude o focinho cada vez mais inchado do meu companheiro. Depois esperei o ansiado milagre. Talvez a noite fizesse bem ao fadista.

No dia seguinte, manhã cedo, levantei-me e fui em direcção ao armazém.Lá onde o fadista devia estar sossegado a dormir, já com o focinho de regresso ao normal. Mas quando o vejo, imóvel, petrificado,  com o focinho ainda mais grosso do pus do veneno, senti o meu corpo cambalear aturdido por cima da realidade:  inerte, estendido por terra,  à minha frente - o fadista, meu companheiro de muitas tardes de chuva e de sol, já era cadáver.

E eu chorei, ali, diante do seu corpo envenenado, e frio, como a noite que o vira desfalecer, a primeira morte da minha vida.

 

 

 

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