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ela, 2. antonio candido . 8341659518_ecc98db9f2_m . Cândida dos Reis Dias Pinto . minha foto. agostinho ribeiro . agostinho . francisco gomes .

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PARADA DO CORGO

viveiro em 1987


Ficções do Real

por cunha ribeiro, Sábado, 07.11.15

Um Conto de G.de S.:

Eu era um jovem com as hormonas aos pulos. Ela, uma vizinha nova e atrevida. Decote, vestido justo, batom vermelho, tempo demais na janela, o corpo como uma viola. Entre a minha casa e a dela havia um muro e uma janela. Olhando-a, disfarçadamente, ficava a pensar como seria bom saltar o muro, pela janela. Mas era meio covarde, para essas coisas.

 Do lado de lá, ela cantava com uma voz  inquietante. Meu pai não gostava, sabe-se lá por quê. Minha mãe também não, pode-se imaginar por quê.  A voz ficava a pairar entre a janela e o muro. Dava para ouvir minha mãe protestar, entre dentes: “Sua besta, num tem vergonha”. Minha mãe não suportava aquilo. Eu tinha vontade de espiar para ver o que ela estava fazer, mas para essas coisas era meio covarde.

Seria casada? A suspeita que não, era geral. Mulher casada procura as vizinhas, apresenta o marido, pede uma tigela de arroz emprestado. A independência dela insultava a comunidade das mães, avós e filhas. 

Quando eu voltava pra casa, perto da meia-noite, via-a na janela. Esperava quem?  O marido? O amante? Quem? Um homem... Um felizardo qualquer... Eu olhava, ela fumava, eu saía, ela ficava. Com a repetição, ela já me sorria, mas eu desconfiava do ar zombeteiro dela e nunca acreditei no sorriso. Tinha vontade de enfrentá-la e perguntar, atrevido: esse riso é de mim, ou pra mim?

Na frente do espelho, ensaiava o tom da abordagem. Quando vinha pra casa, na viagem, pensava: hoje  falo. Mas nunca consegui. Sou meio covarde para essas coisas.

Uma noite ela assobiou. Dizem os entendidos, que as mulheres às vezes usam o assobio para imitar com certa graça o jeito amaneirado de certos  homens, e foi o que ela fez naquela noite. Ganhei coragem, saí de casa, fechei a porta, e logo a seguir bati-lhe à porta.  Ela vestia toda de azul e sorria da minha ousadia. Eu pretendia parecer seguro, dono da situação, mas o sorriso dela  fez-me desconfiar do meu presumido autodomínio. Olhou-me maliciosa e disse-me que o marido estava a chegar, e não seria bom encontrar-me ali. Concentrei-me no papel tantas vezes ensaiado, respondi que seria ótimo se ele chegasse, que assim eu poderia explicar que ela havia assobiado, que eu havia subido para tirar satisfações,  porque não era palhaço nenhum... Não creio que a representação tenha sido muito boa: ela continuava a sorrir, com malícia. Encostou-se à parede como uma atriz num palco, e a sua voz sussurrou: “Ele não vem hoje. Quer entrar?”

Deveria ter sido mais prudente e  ter recusado, mas para essas coisas nem sempre sou muito covarde.

Entrei, conversamos sobre o meu futuro e o passado dela.

- Olha, vou-te mostrar as minhas fotos. 

Eu a segui-a até um quarto pequeno onde havia uma cama enorme, um guarda-roupa, uma mesinha com um candeeiro .

- Senta-te, disse.

Tirou de uma gaveta um álbum e mostrou-me fotografias de quando era miúda, cartas apaixonadas de antigos namorados, retratos deles ou de outros com declarações de amor nas costas e uns versos escritos pelo namorado atual.

- Ele não é meu marido, quis clarificar.

 Ela não sabia, mas eram versos copiados de Camões, palavra por palavra:  "Amor é ferida que dói e não se sente. Busque amor, novas artes, novo engenho. Alma minha gentil que te partiste".

- Eu não gosto muito dele, mas gosto que ele me ame assim. Os meus namorados sempre me amaram muito.- Disse, com alguma vaidade.

Tive ciúmes deles e vontade de lhe  dizer que os sonetos não eram do namorado, mas de Camões, mas para essas coisas sou meio covarde.

 Quando chegou a hora de falarmos de nós, disse-lhe que os seus olhares e sorrisos me pareciam de troça e me deixavam tímido. Que tinha vontade de lhe  perguntar “o que se passava, que eu só tinha só dezessete (ou dezoito?) anos. Ela disse-me que me achava muito sério para a minha idade, que quando ouvia passos  corria para a janela para me ver. Tive vontade de lhe contar que sonhava  com ela. Mas para essas coisas era meio covarde.

Quase de manhã, saí, entrei em minha casa, e fui-me deitar. Ela disse-me  que voltasse mais vezes. Mas era perigoso e eu deveria ter recusado. Mas para essas coisas nem sempre sou muito covarde.

 

 

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Capela de Parada de Aguiar e Rua do Arco, com ef. especiais


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