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PARADA DO CORGO

viveiro em 1987


Telescola

por cunha ribeiro, Sexta-feira, 03.02.17

 

 No fim da missa, o Padre Amaro:

- Vós, os pais, que tendes filhos a concluir a escola primária, se quiseres que eles continuem os estudos, vinde falar comigo no fim da missa.

Terminada a missa, meus pais e outros aproximaram-se do Padre Amaro. Falou-lhes de um projecto educativo novo no nosso concelho - a Telescola.

Foi assim que, em Parada do Corgo, durante um ano, um grupo de  recém-saídos da Escola Primária, palmilhou, diariamente, o caminho, entre Parada e Fontes,  a fim de ter aulas pela televisão. O Francisco Pires,  o José Augusto, a Agostinha Nunes,  eu próprio, e outros que agora me falham, fizeram parte da "geração da Telescola".

 À beira da noite, lá íamos nós, a pé, até à Escola Primária de Fontes, aprender matemática, português e Ciências, apenas com uma televisão à frente e uma professora a orientar e a disciplinar. Seguíamos pela linha do Corgo, e, já perto de Fontes, percorríamos uns metros de estrada, culminando o percurso na longa subida até ao edifício escolar.

Mas houve um dia em que nós, os rapazes, resolvemos fugir à rotina. A dado momento, alguém perguntou:

- E se hoje faltássemos? 

E nós, em coro, espevitados pela ideia:

- Vamos a isso!

Estávamos na linha do Corgo, já próximo de Fontes. Decididos a destrepar, saímos da linha, virando à nossa direita , e fomos por outro caminho. Atravessámos o rio, e sumimos por entre a ramagem de um carvalhal, entre a Rebolfa e Montenegrelo. Por lá nos deixámos estar, no jogo e na galhofa, até à hora em que sairíamos das aulas. Jogámos às cartas, ao fito e ao malhão. Uma tarde de regabofe.

No regresso a casa, caí em mim. Será que em casa já sabem? Cheguei, de consciência pesada. Entrei no meu quarto, à espera que daí a instantes alguém me interpelasse. Na cozinha, tudo normal, os pratos já estavam em cima da mesa. Comemos, e ninguém falou no assunto. Pensei: estou livre.

No dia seguinte, quando cheguei a casa, minha mãe, mal me viu, saltou de junto dos potes, e disparou:

- Anda cá meu marmanjo, que eu quero saber o que andaste a fazer...

- O que foi, mãe !?

- Soube que ontem não foste às aulas, onde é que tu te meteste?

- Bem, eu...

- Tu não me mintas, que te hás-de confessar ao Padre Amaro...

Fiquei aterrorizado com a ideia... Nunca eu tinha escolhido o Padre Amaro para me confessar... Tal era a vergonha de contar os pecados à pessoa que me via todos os domingos na missa, e que tinha fama de dar recados... Sabia lá se me perdoaria, sequer...

- Sim, mãe, faltei...

- E escusas de dizer os nomes dos outros...Eu sei muito bem quem foram ... Mas o que me interessa és tu. Sabe Deus o sacrifício que nós fazemos...

E continuou a fustigar-me, como só ela sabia, num tom exaltado, até perceber, pela minha postura, que eu não voltaria a prevaricar.

Pensando bem- reflecti - era estúpido perder aulas daquelas, inéditas no nosso concelho, com muitas imagens, documentários, quase interactivas. Ao fim de cada aula, com o televisor desligado, um pequeno questionário da professora orientadora, fazia o feedback da aprendizagem.

Obviamente que, repetidas vezes, o feedback abortava. É que, as "palestras" vindas dos Estúdios da RTP, em Lisboa, não eram sempre ouvidas com atenção, pois o penteado,  a blusa, ou o colar das professoras, a gravata e a voz dos professores eram o foco prioritário da nossa atenção

 Dono de uma voz grave e bem colocada, o professor de francês, primorosamente engravatado, cativava-nos sobremaneira. 

- Comment tu t`appelles? (Interrogava)

E depois de uma breve pausa - para as nossas respostas -,dizia, com uma articulação impecável.

- Répétez, s`il vous plaît!

 Gostava daquelas aulas.

 Sem a abertura da Telescola, o meu percurso escolar teria acabado nas férias de Carnaval do ano transacto. Começara a frequentar o Seminário. Desde o primeiro dia, a tristeza e o pranto tomaram conta de mim. Já no Natal, quisera ficar em casa, mas não ousei desiludir a família. No Carnaval, porém, já não resisti. Foi o momento escolhido para o regresso à alegria. Oficialmente eram três dias de férias para matar saudades; intimamente, era  a evasão, o regresso definitivo ao conforto do beijo e do abraço. No Seminário, só o recreio me fizera esquecer a ausência de afectos. Na Telescola de Fontes, voltei a respirar o encanto que têm os livros, a alegria de ler e escrever num mundo normal, onde a família, os amigos de infância, os cheiros e a paisagem eram partes de um todo, que só no todo nos realizam. 

 

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às 18:51

Capela de Parada de Aguiar e Rua do Arco, com ef. especiais


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