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PARADA DO CORGO

viveiro em 1987


O CIGARRO

por cunha ribeiro, Quinta-feira, 23.02.17

Quando comecei a fumar, devia ter levado, não um raspanete, nas um puxão de orelhas seguido de uns tabefes.

Meu pai só percebeu que eu fumava quando, por obra do diabo, se sentou em cima da minha samarra, no escano, à lareira. Por meu descuido, o SG ventil, ficara, quase cheio, no bolso interior. Ao sentir o desconforto debaixo da anca, levantou-se, pegou na samarra, e, perante a minha aflição, descobriu o que, na verdade, não queria nem imaginava.

Receei, por instantes, que meu pai me iria massacrar com o pior sermão de sempre.  Mas não. Seguiu-se  uma reprimenda, tão delicada, que no fim só me apeteceu de o abraçar e beijar. E o efeito dissuasor que teria se tivesse havido sermão a sério, perdeu-se. 

Não foi o mesmo como naquela dia em que um de nós ousou questionar a sua autoridade quando estava em causa  a negação de uma saída nocturna mais prolongada, e explodiu:

- Debaixo deste telhado, quem manda sou eu! 

 Embora, a partir daí, os cuidados redobrasem,  continuei pois a fumar.

Mas a "culpa" de eu começar a fumar foi de um vizinho. Achava piada à postura dele com o cigarro, e quis imitá-lo. É certo que se ele puxasse de um cigarro na rua, ninguém acharia anormal. Já se fosse eu, ainda aquém dos 18, assim não seria. É um abuso dizer que a culpa foi dele, quando, na verdade, foi minha. O certo é que, ao vê-lo fumar, achei piada à figura de jovem crescido e independente que o cigarro lhe dava. E quis  experimentar a ver se o milagre da maturação se dava comigo. Claro que, antes, fui vendo como ele fazia. E fiz mesmo perguntas:

- Como é que fazes pra travar o fumo?

 Riu-se. Mas tentou explicar:

- É simples: aspiro o fumo (como já era estudado, usava palavras caras), e, logo a seguir, travo-o na garganta..

- Travas?! Mas como?

- Ó pá, faço com que o fumo desça até à garganta e fique lá uns segundos até o expulsar.

Teoricamente era assim. Mas não era fácil perceber a sequência, sem experimentar. Por isso, o meu vizinho e amigo deu-me uma aula prática de como fumar.

- Olha, faz como eu.

Pegou num cigarro, acendeu-o, e começou a aspirar o fumo, levando-o, de facto, à garganta. Aí o fumo aguentou uns segundos  e voltou a sair, só que às bolinhas...

- Assim às bolinhas, é complicado.. Mas o que sentes tu na garganta, para gostares de fumar?

- Não te sei explicar. Sei que gosto. E basta.

 Mal comecei a experimentar, a aprendizagem foi rápida. As primeiras vezes, em vez de travar, engolia. Não tinha graça nenhuma. Se não aprendesse a travar, depressa esquecia os cigarros. Não demorou muito a sentir o sabor do tabaco a afeiçoar-se à garganta. Não sabia a chocolate nem caramelo, mas sabia a qualquer coisa quer viciava, pronto.

O apego ao cigarro seguiu viagem comigo prá França. Onde não havia SG, nem Ritz, nem Porto. Experimentei uma marca barata  a ver se  gostava enquanto poupava. Mas não ... sabia a mata ratos. Tentei Marlboro, fumei um cigarro, e bastou. Percebi o que ia fumar a partir desse dia.

Porém, um belo dia, após meia dúzia de anos estupidamente pregado ao vício, enchi-me de brio, e decidi mandar o cigarro às urtigas.

Para o fazer tive de me socorrer de tudo o que pudesse ajudar. Recordei, então, a reprimenda de meu pai e os ralhetes de minha mãe  e imaginei a felicidade que lhes daria se lhes dissesse: "deixei de fumar". Rememorei  a ironia do Padre Amaro, quando um dia, no corredor do colégio me  quis envergonhar, com uma tirada que nunca esqueci: " Pareces a chaminé da fábrica". Mas a ajuda maior foi  a tosse a catarro,  quase diária ... Essa sim, decisiva para  acabar com o vício.

Andava a ler um pequeno livro sobre o assunto. A certa altura escrevia o autor: " Deixar de fumar é mais fácil se  tomarmos  uma atitude psicologicamente firme de negação, através de um gesto original e categórico".

 "Um gesto categórico e original?" - matutava eu, enquanto caminhava numa rua parisiense, pela manhã, depois de mais um ataque de tosse catárrica. "Só se..." (A ideia veio-me depois de ouvir o barulho de um comboio que se aproximava )  "Só se arrancasse o marlboro do bolso, e o lançasse na linha, de encontro à locomotiva e gritasse: " Acabou!"

Meu dito, meu feito - arranquei o maço do bolso, arremessei-o, sem hesitar, para a frente da locomotiva, e, a plenos pulmões, berrei:

- Acabou!

Nunca mais fumei um cigarro.

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