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PARADA DO CORGO

viveiro em 1987


Mestre Armanda Azenhas, "Grito de Alma"

por cunha ribeiro, Domingo, 06.02.11

 

ARMANDA ZENHAS Mestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, e concluiu o curso do Magistério Primário (Porto). É PQA do grupo 220 na Escola EB 2,3 de Leça da Palmeira e autora de livros na área da educação. É também mãe de dois filhos.

 

 

A minha profissão está a perder alma. A escola está a perder alma. Eu estou a perder alma. Cada novo diploma legal (e são tantos) acrescenta mais um tanto de burocracia à profissão, com o argumento do rigor.
Escolhi a minha profissão. Escolhi ser professora. E escolhi assim porque encontrei alma nesta profissão, na relação com os alunos, na relação com as famílias e também na relação com os outros professores. Olhar para cada criança ou jovem como um ser único e estabelecer com ela(e) uma relação que vai para além do vocabulário e das estruturas gramaticais do Inglês que ensino, mas que é fundamental para a sua aprendizagem. Ser procurada pelos alunos, particularmente nos seus momentos maus, nos seus problemas, relacionados ou não com a escola, quando se conquistou a confiança deles. Ajudá-los a resolver os problemas quando é possível, ouvi-los, pelo menos, quando mais não se pode fazer.

Estabelecer uma relação com as famílias como directora de turma. Conhecer, assim, melhor, cada aluno, e conquistar a confiança e criar laços com os pais, fazendo com que haja clima para analisar os problemas dos seus educandos e encontrar estratégias de resolução em que a família, os alunos e os professores entrem, cada um de acordo com as suas responsabilidades e o seu papel. Atendimentos, reuniões de pais e alunos, projectos desenvolvidos para além do horário, da remuneração e do reconhecimento de quem não as/os vive(u), nas horas de alma e com alma. Fazer de cada turma uma família com alunos, mas também com pais e professores, em que a escola é, de facto, uma segunda casa, não apenas nem sobretudo pela quantidade de tempo que se lá passa, mas pela sua qualidade.

Ser professor é ter uma profissão eminentemente relacional, que se constrói na vivência da relação. Não estou a esquecer-me da necessidade do conhecimento científico do professor e da necessidade de ele saber trabalhar esse conhecimento do ponto de vista pedagógico, para que os alunos possam aprender. Estou apenas e tão-só a salientar a importância da dimensão humana e relacional do processo de ensino-aprendizagem e, consequentemente, da profissão docente.

A minha profissão está a perder alma. A escola está a perder alma. Eu estou a perder alma. Cada novo diploma legal (e são tantos) acrescenta mais um tanto de burocracia à profissão, com o argumento do rigor. São fichas e papéis para tudo e... para nada: para as faltas dos alunos, contadas das mais diversas formas e nos mais variados documentos; para informar os pais sobre tudo e mais alguma coisa, com prazos reduzidíssimos; para justificar cada negativa que se dá; para fazer planos de recuperação de cada negativa que se dá; para tomar medidas disciplinares; para as justificar; para...; para...; para... São reuniões atrás de reuniões para tratar de mais burocracias, em que o tempo é sempre mais longo do que o previsto (mas não remunerado) e os assuntos que verdadeiramente interessam, aqueles que têm alma, já não têm tempo de ser abordados. Convencemos os pais dos alunos de que devem passar tempo com os seus filhos, após a escola, e nela permanecemos nós, depois do horário das aulas, em reuniões sem fim, com os filhos à espera, na ama, sozinhos em casa, ou com alguém que não nós. Tudo isto, sem que tenha diminuído o número das outras tarefas. Essas, aquelas em que eu encontro alma, vão perdendo espaço e valor.

Entra-se numa sala de professores e só se ouve: "Já não tenho tempo para preparar aulas como gostava. Agora, reutilizo as coisas que fui fazendo ao longo dos anos.", "Já não consigo tempo para ir às livrarias e nem sequer para ler.", "Não consigo nem um bocadinho para pesquisar na net coisas novas.", "Não tenho tempo para a família e nem para mim." E logo depois, também se ouve: "Não foi para isto que vim para professor." Olha-se à volta e vêem-se colegas de profissão, um pouco mais velhos, sempre dedicados ao trabalho, de corpo e alma, respeitados na escola e a ela fazendo imensa falta, calculando o que perdem com uma reforma antecipada. Querem ir embora enquanto a burocracia não lhes rói a alma e acabam por o fazer, de lágrimas nos olhos, enquanto muitos outros já partiram mesmo.

Por mim, tenho vindo a procurar não perder a alma, aguentando o tal trabalho relacional, invisível, não reconhecido nem remunerado, acumulando-o com o obrigatório, cada vez mais burocrático. Também eu penso, digo e repito cada uma das frases que ouço aos outros. E, por incrível que pareça, até já me apanhei a pensar "Quem me dera ser mais velha!". Na verdade, nunca me quis imaginar na reforma, como muitos destes dedicados professores também não. Mas entre a alma/saúde mental e esta burocratização crescente da escola, então há que salvar o principal. Vejo os meus colegas partirem ou preparem-se para a partida. Quando tal acontecia, em tempos não muito remotos, todos se sentiam nostálgicos e a partida era discreta. Hoje há efusivos parabéns a quem conseguiu e uma inveja (mal) calada de quem tem que ficar.

Estas palavras são as lágrimas que não choro e que transcrevo para a solidão do papel para que ajudem a fortalecer uma alma-professora que luta por si própria, pela sua sobrevivência, e pela escola-alma com verdadeira alma, mesmo alma.


 

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