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PARADA DO CORGO

viveiro em 1987


O anjo e o monstro

por cunha ribeiro, Terça-feira, 01.11.11

 

Duarte Lima, em minha opinião, não é o tipo selvagem que a imprensa parece dar eco. Já vieram a terreiro, pessoas que com ele privaram, exprimir a sua estupefacção pela acusação que lhe fazem.

Embora os factos pareçam apontar para uma tese segura de assassinato levado a efeito pelo acusado, mesmo que tal se comprove, Duarte Lima não é, como muitos não são, um assassino de faca e alguidar.

 Um homem não é apenas um comportamento. É, antes, uma sequência mais ou menos coerente de atitudes.  Este homem não pode apenas ser visto de revólver em punho a matar uma pessoa, por acaso sua cliente. 

 Duarte Lima já foi  criança, jovem e adulto e nunca matou ninguém. Logo, não é uma pessoa violenta por natureza, um assassino sanguinário. Há quem já venha do útero de revólver na mão. Duarte Lima certamente que não.

 Então o que fez de um inocente rapaz, que tocava órgão na Igreja da sua terra natal, um virtual homicida?

 O filósofo francês, J. J. Rousseau celebrizou uma ideia que pode explicar esta questão: " O homem nasce bondoso, a sociedade é que o corrompe".

 Duarte Lima é um hiper-ambicioso. Deixou a província, estudou, trabalhou. Subiu a pulso até se destacar na montra política, que é o parlamento, onde liderou a bancada laranja. Algum tempo depois, a riqueza súbita obrigou-o a ter de explicá-la e fê-lo cair de novo na penumbra do anonimato, depois de se demitir.

 Duarte Lima, em Lisboa, no epicentro da alta finança e da alta política, o que vê à sua volta? Gente que ele tenta imitar. Pessoas que ganham milhões no mesmo espaço de tempo  que um cidadão comum ganha tostões. A queda abrupta no anonimato mais lhe terá aguçado o apetite pelo dinheiro rápido e fácil. Seria a forma de ele poder vingar a fama perdida, pois precisava de pedestal para viver.

 É preciso notar que Duarte Lima para comprar casas de vários milhões era obrigado a ter dinheiro para isso. E como se ganham milhões, sem o milagre da lotaria, ou sem o suporte de uma super-herança familiar?

 Apanhando a riqueza dos outros. Mesmo que seja preciso invadir o círculo restrito de uma herança extra-familiar, como foi o caso. Tudo isto para continuar a satisfazer o seu desígnio umbilical de ser poderoso pelo dinheiro. 

 Houve uma pessoa que, legitimamente, quis estorvá-lo na sua gananciosa  missão plutocrata. Pois bem, era preciso contornar o obstáculo. Foi o que fez. Só que em vez de o contornar, eliminou-o, com dois tiros certeiros e definitivos.

 

 ( O facto de resultar da leitura do texto uma convicção que é minha, não significa que esteja a dar a pessoa em causa por condenada. A presunção de inocência deve acompanhar o arguído até, pelo menos, ao total exercício do contraditório por parte dele)

 

CR

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às 12:24

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