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PARADA DO CORGO

viveiro em 1987


Bom Natal a todos os meus amigos de ontem e de hoje

por cunha ribeiro, Sábado, 10.12.11

 

DEIXEM-ME RECORDAR:

 

Era um fedelho, ainda sem perceber nada do mundo e da vida. Talvez à espera de ter idade para ir para escola primária.

 Por essa altura, ainda não se rezava missa dominical em Parada.

 Estávamos no tempo em que a “Capela do Santo” era um pequeno “estábulo” onde se reuniam algumas almas. Uma espécie de presépio, onde só o burro e a vaca não podiam entrar.

 

Mas, verdade se diga, sem essa linda capela alguns e, sobretudo, algumas gentes da nossa aldeia, vide, a Tia Glória, não teriam ficado, como ficaram, na memória colectiva dos paradenses.

O dia de consoada era para mim a apoteose da quadra - muito mais interessante que o de Natal.

Muito embora fosse um dos dias mais pequenos do ano, era afinal, para nós, um dos que mais tempo durava. Começava pela manhã e prolongava-se alegremente até à missa do galo, que o Pe Amaro rezava em Soutêlo de Aguiar, à meia noite, em ponto.

Ora, um dia  que se prolongasse até depois da meia noite podia ser uma grande chatice. Mas não o dia de consoada. Esse acabava sempre por ser curto demais.

Logo pela manhã, vinha a excitação das guloseimas. Por volta do meio-dia lá vinham elas, dentro de um açafate, da feira dos vinte e cinco. Ele eram  figos secos; ele eram amêndoas; ele eram pinhões; ele eram confeitos..., enfim, uma fartura de coisas boas e raras. Tão raras que ao longo do ano, ninguém as cheirava.

 Mas, para além dos encantos e lembranças comuns, que todos nós conhecemos e vivemos, há uma muito peculiar, muito minha ( minha e dos meus irmãos) a qual recordo sempre como se a estivesse a reviver no momento. É uma espécie de renascimento, um sonho que me leva de retorno à infância.

A minha irmã, Deolinda, já  alinhavava umas costuras, e todos os anos fazia umas saquinhas em pano branco que sobrava de lençóis já gastos.

 Ora ela tinha o imenso prazer ( como ainda hoje tem) de contribuir à sua maneira para o prazer dos que convivem com ela. E nessa altura os felizardos éramos nós, os três irmãos.  Assim que tinha a saquitada pronta lá vinha ela, feliz, distribuí-la pelos irmãos.

 Ora, para nós, exibir o saquito cheio de lambisguices era como levantar um troféu. Na distribuição inicial, funcionava em pleno a democracia doméstica - todos enchiam o pequeno saco. O pior era mantê-lo cheio até ao fim do serão. É certo que todos guardavam, com zelo, as guloseimas; mas , durante o dia, os  ataques  da nossa gula, na altura muito bem afiada, eram avassaladores ( mesmo que os sacos estivessem, como estavam, atados na ponta).

 

Entretanto, o que escapasse, sem dano, às investidas vorazes , era , ao serão, açambarcado por quem tinha mais sorte, no jogo do rapa. Mais sorte, ou mais poder, pois os mais velhos, não tendo a ajuda da sorte, impunham a lei do mais forte. A democracia que enchera os sacos de todos, era agora ignorada e substituída por uma espécie de lei da sobrevivência. Mas calma que não havia zaragata. Naquela casa havia disciplina. Respeitavam-se os mais velhos, mesmo que estes abusassem um pouco do seu poder.

Na prática, a coisa passava-se mais ou menos assim: O rapa ia rodando na mesa, e de mão em mão. Uns iam tirando, ou rapando, outros, mais infelizes, iam deixando e perdendo. 

 

Quanto a “comícios” a coisa também era única: Ao meio dia ninguém comia mais que quase nada: algumas – poucas - guloseimas e o "caldinho" se alguém quisesse.

À noite era a grande desforra. Primeiro, o bacalhau e o polvo cozido; depois, as rabanadas, os bolos e a aletria. Um regalo de sobremesa. A única de todo o ano.

 Ainda hoje me interrogo por que razão não se fazia aquilo pelo menos uma vez todos os meses. Que diabo, eram só doze vezes por ano. Ou então, distribuíam a coisa: um mês uma sobremesa de rabanadas, outro, uma de aletria, e por aí adiante. Mas não, só havia um santo dia no ano para aquilo tudo. E nós, com a vesícula ainda sem mácula, bem que comíamos tudo.

Depois da janta, e do rapa, estava na hora da missa do galo. Era uma verdadeira loucura, a pequenada a correr e a saltar, estrada além, excitados com aquela espécie de liberdade nocturna aprovada, até se alcançar a Igreja.

 

Lá dentro, o presépio era o centro de toda a minha atenção. Para mim, estava ali, em ponto pequeno, todo um mundo de fantasia e mistério que me fazia sonhar. Uma espécie de Disneylândia dos pequeninos.

 Durante a missa nada mais mexia com os meus sentidos senão aquilo. Não ouvia nada, não via ninguém à minha volta. Interessava-me pelo pequeno tanque, feito com um pedaço de vidro espelhado, onde "nadavam" patinhos brancos; sobrevoava nas asas do Anjo por cima das pequenas elevações  feitas de pedra e de musgo a simular montanhas. Admirava a forma artística como tinham edificado o curral onde estava o menino, deitado, e o pitoresco de todas aquelas figuras à sua volta.

O certo é que, mergulhado na fantasia ali recriada, não via a hora da missa passar. E quando dava por ela, estávamos a beijar o menino, e a regressar de novo aos saltos, como cabritos, ao doce convívio do lar.

 

Francisco Cunha Ribeiro

 

 

 

 

 

 

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às 19:15

Capela de Parada de Aguiar e Rua do Arco, com ef. especiais


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