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PARADA DO CORGO

viveiro em 1987


António Cândido - Olhar de Fora

por cunha ribeiro, Quarta-feira, 08.02.12

 

 

                                                                           

   CONFESSO QUE VIVI

 

Como era o mais novo de oito irmãos, todos eles tinham por mim um carinho muito especial. Quando nasci, eles os rapazes alguns já eram homens, e elas as raparigas algumas já eram também mulheres.

O meu pai homem de carácter bem rígido, era um honrado lavrador como muitos da nossa aldeia. Era um homem vergado pelo trabalho, e acima de tudo pelas dificuldades da vida.

A minha mãe não tinha mãos a medir, tanta gente para dar de comer, tanta roupa para lavar e remendar, e ainda ajudada nas terras quando o trabalho era de mais.

Eu aí crescendo, e cada vez mais sentia o calor humano da família, e começava então com birras de os acompanhar quando saíam de casa com destino às terras ou outro lugar qualquer.

Quando me levavam, saltava e corria pelos caminhos só parando no destino, eles íam sachar milho, e eu, espreitando os buracos das paredes chiscando aqui e ali procurava os ninhos. Um dia depois de tanto chiscar nos buracos, fui picado por tantas vespas que fiquei tão inchado que não via nada, foi remédio santo nunca mais quis.

Lá em casa havia sempre gado, que era preciso apascentar por vários lugares, ora nos lameiros da algobada, ora na serra, ou qualquer baldio mais á mão. A minha irmã Etelvina honra lhe seja feita, era uma excelente cantadeira e guardadora de vacas, e eu, sempre que podia andava com ela, pelos montes e vales lá do burgo.

O meu irmão Manuel era um rapagão sendo no fundo um autêntico estoira-vergas, por ironia do destino, quando o acompanhava para qualquer lugar, aconteciam sempre coisas levadas do diabo. Certo dia no mês de Julho, o nosso destino era ir ao lameiro das algobadas buscar um carro de feno, ele seguia á frente do carro das vacas, e eu ía sentado nas xedas agarrado a um estadulho, quando se preparava para entrar o portelo do lameiro, uma das rodas  passou por cima da parede, tombando-se o carro, e as rodas lameiro abaixo só pararam no ribeiro.

Ainda hoje falamos nisso, o anjo da guarda estava comigo nesse dia, porque nem um arranhão eu tive.

Era também hábito os lavradores carrar carros de estrume, e fazer uma moreia nas terras para depois espalhar quando ser lavrava. Nessa altura o meu pai trazia uma grande terra arrendada ali para os lados do serralheiro que ficava entre o rio e a linha do comboio.

Naquele dia estava muito frio, não sei bem se era inverno ou primavera, o meu irmão preocupado comigo acendeu uma fogueira ao lado da moreia de estrume, e o resultado foi dos piores, a moreia começa a arder e ele atarantado sem saber que fazer, logo descalça os socos e começa a carrar água neles para apagar o fogo mas em vão. Sente-se impotente perante tragédia, mas logo agarra em mim e me leva para longe. Passados cinquenta e tal anos, recordo com o maior desprezo um sujeito qualquer que ali apareceu, que em vez  de ajudar a apagar o fogo ainda começou a aquecer os pés, encostado a uma sachola que levava ao ombro. De facto ele á gente neste mundo para tudo. Como não há duas sem três, numa bela tarde de verão, fui com o Manuel com as vacas pró monte na zona da veiguinha. Já lá andavam alguns rapazes e entretanto chegaram mais, todos se juntaram numa zona bem arranjada com alguns buracos para jogar a reca, isso mesmo jogar a reca. Os rapazes tinham umas mocas que batiam numa bola de urgueira a qual tinha que entrar nos tais buracos.

É aquilo que nós conhecemos hoje por golfe, portanto já nessa altura Parada estava avançada no tempo. Com todo aquele entusiasmo do jogo da reca, todos perderam a noção do tempo e das vacas, quando chegamos a casa já era noite, e mais uma vez lá veio o sermão de umas bordoadas e uns cachaços á mistura

Entretanto o tempo tinha passado tão rápido, que nem sequer me apercebi que já tinha 12 anos. O percurso da minha vida lá vai continuando, mas cada dia que passa me vou sentindo mais só. Os meus irmãos mais velhos já há muito tempo partiram para Lisboa, á procura de um lugar ao sol.

O Manuel é agora pára-quedista, visitou-nos há dias e envergava um farda de se lhe tirar o chapéu, e pelo que sabemos brevemente irá prá guerra em África. Na casa dos meus pais, que era um ninho tão belo e acolhedor, é hoje vago e sombrio. Resta o meu pai e a minha mãe, eu, e minha irmã Etelvina.

Tenho observado que a grande azáfama dos trabalhos da terra, morreu completamente, temos ainda algum gado que mais dia, menos dia é para vender. Ao subir as escale iras do quinteiro até á sala grande, encostei-me á porta e olhava aquilo que eu mais temia, A Etelvina estava naquele momento a fazer a mala, porque também ela vai para Lisboa amanhã.

Cada dia que passa, uma solidão atróz invade o meu corpo que só me apetece chorar, sinto-me verdadeiramente só. Já se passou algum tempo, e o meu pai foi passar a Páscoa a Lisboa na companhia de todos os filhos que lá se encontram. Regressou há dias mas vem doente, tem-se refugiado na cama e não quer sair, a minha mãe anda preocupada e eu vou ajudando no que posso.

Inesperadamente num domingo de manhã do mês de Maio, o meu pai acordou-me e pediu-me que o acompanha-se a dar uma volta pelas nossas terras, logo obedeci e fiquei admirado por ele ter saído da cama. Fomos até á  cortinha dos enxertos, e quando chegamos logo se sentou olhando olhando, e  disse, vamos até ao tojal. Quando passava-mos na tragalhela junto aquela casa velha, voltou a sentar-se, e rapidamente se agarrou ao peito murmurando qualquer coisa que eu não percebia. Nunca na vida tinha gritado tanto e tão alto, porque naquele momento não sabia o que fazer, beijei-o vezes sem conta, e agarrado a ele continuava gritando, meu pai, meu rico pai, mas nunca tive resposta.

Foram chegando pessoas, e ouvi alguém dizer aquilo que não queria ouvir, o senhor Aníbal Cunha está morto. Meu Deus! Como é doloroso ouvir tal coisa, numa circunstância daquelas.

Todos os meus irmãos vieram de Lisboa, prestar a última homenagem, àquele que todos amava-mos, seguiram-se todas as formalidades que um acontecimento desta natureza requer, e uns após outros foram partindo mas desta vez muito mais tristes.

Fiquei sozinho com a minha mãe, mais alguns meses, no dia 7 de Dezembro do ano de 1965, chegava a Lisboa pela primeira vez, e aí iria começar uma nova vida com a bonita idade de 13 anos.

 

 

António Cândido------Lisboa

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às 17:41

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2 comentários

De Francisco Gomes a 09.02.2012 às 22:53

Caro amigo António Cândido! Parabéns por este belo texto. De todos os que já escreveste neste blog este foi o que mais me sensibilizou.

De cunha ribeiro a 09.02.2012 às 23:31



 Mais um texto muito tocante do António Cândido. A revelar muita alma, muito sentimento, muito ser.
 Aproveito esta oportunidade para recordar um momento muito dentro deste que o António Càndido nos narra:
 Lembro-me com o se fosse hoje - No dia do funeral eu fui lá a casa.  E não me lembro de mais nada, nem sequer de ter visto o defunto seu pai, no caixão, nada. Mas nunca mais esqueci o ar triste, muito triste, deste nosso amigo, então com os seus 12 ou treze anos. Recolhido num canto, à entrada, à direita, junto à cozinha.

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