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PARADA DO CORGO

viveiro em 1987


A todos os associados de " O Prazer da Memória" - Aleluia!

por cunha ribeiro, Sábado, 07.04.12

 

Que o PROTAGONISTA de mais uma Páscoa RESSUSCITE da desilusão os infelizes, e continue a dar ânimo a quem se sente feliz.

 

Aleluia!

 

Francisco Cunha Ribeiro

 


 Alegrem-se, e fiquem com a
 
Lenda do Folar da Páscoa

Esta é uma das várias lendas que a tradição guarda ciosamente sobre o folar da Páscoa. É simples como a alma do povo, pois do povo ela vem. Diz-se que é muito antiga. Todavia, não se sabe ao certo a data em que começou a circular de boca em boca.

Numa aldeia que a tradição não menciona, uma linda rapariga, pobre mas bela, tinha uma única ambição na vida: casar cedo. Diz a lenda que ela fiava sentada à porta de casa e orava no seu íntimo a oração que já vinha de avós para mães e de mães para filhas. Era assim a oração: 

Minha roquinha esfiada,
Meu fusinho por encher,
Minha sogra enterrada,
Meu marido por nascer.
Minha Santa Catarina,
Com devoção e carinho
Tomai-vos minha madrinha,
Arranjai-me um maridinho.

Embora a não entendesse bem, parecia-lhe que recitando esta fórmula antiga, que já havia casado sua mãe e sua avó, e as mães e as avós das moças da sua idade, ela seria igualmente atendida. Contudo, acrescentava sempre uma palavrinha sua, não fosse a Santa entender mal o seu desejo. E terminava, pois, dizendo: 
— Santa Catarina! Bem sabeis que me quero casar, com um moço que seja belo, e forte, e trabalhador, para que não fique na miséria... 

Ora bem. Tantas vezes e tão fervorosamente rezou, que Santa Catarina houve por bem fazer-lhe a vontade. E de tal modo que, de um dia para o outro, a jovem aldeã viu-se requestada por dois em vez de um pretendente! Um fidalgo lavrador, rico, educado, forte e belo, mas já passando dos trinta anos, e um jovem trabalhador da terra, belo e forte também, mas sem outra fortuna além dos seus braços, sempre prontos para o trabalho. 
Marianinha não sabia como decidir-se, hesitava sobre qual dos dois devia optar. Ambos lhe agradavam. Um representava a riqueza, a segurança, a tranquilidade… O outro, a juventude plena, o gosto de viver à custa do heróico labutar do dia-a-dia… 
Ambos lhe pediam uma resolução rápida. E ambos sabiam que o outro era a causa da indecisão da jovem. De modo que se viu forçada a recorrer de novo a Santa Catarina. 
Ajoelhada diante da imagem da Santa sua madrinha, Marianinha falou-lhe assim: 
— Ó minha Santa Catarina, ajudai-me a escolher! Ambos me querem… ambos são bons para mim… ambos me agradam… Qual deles devo preferir? Gosto da figura do Amaro, da sua juventude, do seu ar impetuoso e trabalhador… Mas também gosto do senhor fidalgo… das palavras bonitas que me diz… do seu ar pomposo e da riqueza que tem…
E escondendo o rosto nas mãos:
— Oh, minha Santa Catarina, sinto-me envergonhada e confusa!... Mas a verdade é que não sei escolher! Ajudai-me vós! 
Estava ainda de joelhos quando bateram levemente à porta. Marianinha levantou-se apressada e foi abrir. Era Amaro, o jovem e possante Amaro, de olhos negros e tez morena. Sorria-lhe. Um sorriso aberto, tentador. 
Marianinha estremeceu. Seria por esse que deveria optar? Mas o fidalgo era tão rico… tão delicado… tão imponente!... 
Amaro despertou-a desse devaneio. 
— Escuta, Marianinha. Penso que é tempo de tomares uma decisão. Ou bem que me amas… ou bem que amas o outro. Dos dois não podes gostar, acredita! Por isso, previno-te de que preciso de uma resposta tua até à Páscoa. Se até lá não me deres o sim, tomarei isso como prova de que não te interesso e ir-me-ei embora desta terra. 
Ela arriscou: 
— Para onde? 
Ele encolheu os ombros. 
— Que poderá isso importar-te? Se eu partir, é porque não me quiseste para marido. 
Ela desviou o seu olhar do olhar profundo de Amaro. 
— Não quero que te exponhas a perigos por minha causa! 
— Seguirei apenas o meu destino!
Marianinha suspirou: 
— Bem gostaria de saber qual será o meu!... 
— Tu podes decidir. Porque não o fazes? 
— Não sei... Tenho de pensar... 
— Pensar em quê? Amas o fidalgo? 
— Não sei... 
— Gostas da sua riqueza? 
Ela apressou-se a acrescentar. 
— E das palavras bonitas que me diz! 
— Dizer-te que te amo, não achas bonito? 
— Acho, sim! Mas ele… ele diz isso de outra maneira! 
— Cuidado, Marianinha! A voz do coração é só uma! 
— Ele também gosta de mim... 
— Talvez. Mas o caso não é nosso: é teu. Tu é que tens de escolher um de nós, e só um. A não ser que não ames nenhum! 
Ela voltou a encará-lo. 
— Não, não é isso!... Eu amo-os aos dois... 
— Mentes, Marianinha! Não se amam dois ao mesmo tempo, já te disse! Por isso vê bem! Vou dar-te um prazo menos longo: quinze dias. No Dia de Ramos virei ter contigo. Até lá deixar-te-ei à vontade. Adeus! 
Voltou costas bruscamente, o jovem Amaro. Marianinha sentiu-se entristecer. Ele ia zangado. Decerto que ia zangado. E se partisse? E se não mais voltasse? Encheram-se-lhe os olhos de lágrimas. Mas já a figura elegante do fidalgo se aproximava. Ela tentou disfarçar. Ele sorriu-lhe com brandura, dizendo: 
— Salve, Mariana, a flor mais bela que vi sobre a Terra! Meus olhos são felizes só porque te contemplam! 
Ela olhava-o enleada, sem saber que responder. Foi ele ainda quem falou: 
— Que tens? Pareces atrapalhada... 
Marianinha confessou: 
— Na verdade, estou. Dizeis coisas tão bonitas… que mal as entendo! 
Ele envolveu-a num olhar terno. 
— Mariana, se decidires casar comigo, hei-de ensinar-te tudo o que sei! 
— A mim? 
— Claro! E que achas estranho nisso? 
— Ora! Não sei… se poderei aprender! 
— Aprenderás, sim! O que é preciso é saber que me queres... 
Ela ficou ainda mais atrapalhada. 
— Bem... O Amaro... 
Ele interrompeu-a: 
— Já sei. Vinha ter contigo e ouvi as suas últimas palavras. Quer uma resposta no Domingo de Ramos, não é assim? 
— É, sim, senhor. Mas não sei... 
— Tens de saber! No Domingo de Ramos também virei aqui. Estou certo de que saberás escolher! Eu represento o amor, a riqueza, o teu bem-estar e o da tua família. Amo-te, e não deixarei que esse amor me seja arrebatado. No entanto... se a tua escolha está já feita... 
Ela apressou-se a exclamar: 
— Oh, não, ainda não decidi! 
— Tens a certeza? 
Marianinha fitou-o. Os olhos azuis do fidalgo olharam-na bem fundo. Ela esquivou-se a essa investigação, pedindo, interiormente, à Santa sua madrinha que a ajudasse. E o fidalgo despediu-se cortês, embora com uma sombra escura no seu olhar claro. 

Uma semana passou. Toda a aldeia comentava já o caso. A velha Balbina viera, de propósito, bater à porta de Marianinha para a informar: 
— Sabes? Isto vai ser bonito!... 
— Então que há? 
— Olha! Ontem à tarde o Amaro e o fidalgo encontraram-se cara a cara. 
— E depois? 
— Depois... sei lá!... Falaram... discutiram. Ia sendo o fim do mundo! 
— Ó minha Santa Madrinha! 
— E não sabes o melhor. Ambos afirmam que tu já decidiste. Ambos se julgam escolhidos! 
— Sim? Mas eu... 
— Mas tu não escolheste. Isso sabemos nós! Se já tivesses escolhido, não berravam eles tanto. Mas vai ser bonito, vai!... Olha que o Amaro jurou matar o fidalgo, se te desviasse dele com as suas falinhas mansas e a sua fortuna! 
Mariana tremia. 
— Mas... que hei-de fazer? 
— Ora! Decidires-te! 
— Mas como?... como?... 
Marianinha cobriu o rosto com as mãos. Chorava. A velha Balbina meneou a cabeça e comentou enquanto se afastava: 
— Está doida, esta rapariga! Nem sequer já sabe de quem gosta! 
E o Domingo de Ramos chegou. Toda a gente da terra esperava ansiosamente esse dia. Marianinha velara toda a noite, orando. Estava pálida, enervada, fechada num mutismo assustador. 
As horas da manhã passaram. Marianinha não saiu de casa. De súbito, a velha Balbina voltou a bater-lhe à porta, mas desta vez muito aflita. 
— Marianinha! Vem depressa que eles matam-se! Encontraram-se no caminho… à beira do barranco… ambos vinham para cá... 
Marianinha abriu os olhos, aterrada. 
— Onde estão eles? 
— Junto ao rio! Não sei como aquilo começou... Está lá muita gente... mas ninguém os aparta! 
Chorando alto, Marianinha afirmou: 
— Vou lá eu! 
— Mas não te demores, mulher! Um deles cairá morto! 
Aterrada, Marianinha saiu correndo. O rio ficava perto. Ofegante, chorando convulsivamente, ela estacou ante a luta feroz em que os seus dois pretendentes pareciam empenhados. Mal conseguiu gritar: 
— Parem! Parem! Não se matem, pelo amor de Deus! 
Mas para aqueles homens dir-se-ia que nada mais existia à sua volta do que cada um deles. Marianinha pôs as mãos: 
— Santa Catarina! Valei-me! 
De súbito, deu por si a correr para o barranco, gritando: 
— Amaro! Amaro! 
A este grito, os dois homens pararam de lutar, Amaro correu para Marianinha, abraçando-a. O fidalgo recompôs o vestuário, e sem uma palavra voltou para o seu solar. O povo olhava-os sem nada dizer. Ficaram assim alguns segundos. Depois, todos correram em bando a abraçar o jovem casal.
 
Véspera de Páscoa. Marianinha e Amaro tinham combinado para breve o casamento. Todavia, a rapariga não andava feliz. Do fidalgo ninguém mais vira a sombra. Mas dizia-se à boca pequena que no dia do casamento ele havia de aparecer para matar o Amaro. Era como uma nuvem negra a toldar o sol dessa alegria nascente! 
Atormentada, Marianinha não se deitou nessa noite. Chorava e rezava. Pedia perdão de ter sido a causadora dessa inquietante situação. Fora a ambição que a toldara. Mas agora via claro. E queria que tudo acabasse em bem. Pedia então, entre soluços: 
— Ó minha Santa Catarina! Vós, que estais tão perto de Deus, falai-Lhe por mim e pedi-Lhe que me perdoe e me dê uma prova desse perdão! 
Foi então ao que se diz — que ela viu a imagem sorrir-lhe... 
Marianinha tomou alento. Manhã cedo saiu para o campo. Apanhou flores e colocou-as no altar de Deus. Chegada a casa estacou, surpreendida. Sobre a mesa das refeições estava um grande bolo com ovos inteiros dentro e rodeado de flores. Flores iguaizinhas às que ela levara ao altar. Julgando ter sido oferta de Amaro, correu a casa dele. Mas encontrou-o no caminho. Também ele ia a casa da noiva. Tinha encontrado, na sua mesa, sem saber quem o levara, um bolo semelhante ao de Marianinha. Resolveram ir para casa da jovem. E comentaram: 
— Quem poderia ter sido? 
Marianinha não respondeu. Mas sorriu. Amaro indagou: 
— Porque sorris? 
Ela olhou a imagem de Santa Catarina e explicou: 
— Sabes... Eu ontem orei muito… chorei muito... E pedi a Deus, por intermédio da Santa minha madrinha, que me desse um sinal... 
— Que sinal? 
— Um sinal de que estou perdoada... e de que tudo irá correr bem... 
— E pensas que foi Deus que nos ofereceu o bolo? 
— Não. Penso... que foi o fidalgo! 
— O fidalgo? E porquê ele? 
— Porque Deus quis que ele nos deixasse em paz, e me perdoasse a escolha que fiz... 
Amaro concordou: 
— Talvez... Só ele teria dinheiro para tão rico presente. Um bolo com ovos inteiros… e flores... Confesso que nunca vi! Onde teria ele ido buscar esta ideia? 
Marianinha agarrou uma das mãos do noivo: 
— Amaro! E se fôssemos agradecer-lhe? 
— Achas que sim? 
— Acho! É Deus que assim o quer! 
— Então, vamos! 
E saíram. Mas no caminho encontraram o fidalgo que lhes sorriu. Amaro apressou-se a falar-lhe:
— Senhor fidalgo, quero agradecer-vos a vossa lembrança. O que lá vai, lá vai… e isso prova a vossa grandeza de alma! 
O fidalgo pareceu surpreendido.
— Amaro, eu é que tenho de agradecer a vossa lembrança. Nunca vi em toda a minha vida tão lindo bolo com flores! 
O jovem casal entreolhou-se. As lágrimas afloraram aos olhos de Marianinha, que exclamou emocionada:
— Deus é grande! Deus é bom!
Apertaram-se as mãos. Separaram-se amigos. Mas só Marianinha sabia ao certo quem oferecera aqueles bolos com ovos e flores, verdadeiro presente do Céu. 
Na aldeia, a nova espalhou-se. A alegria foi geral. Chamaram ao bolo — folore. Com o rodar dos tempos, o folore veio a mudar-se em folar. E aí está como o povo explica a origem dos folares da Páscoa, cuja tradição mantém tão carinhosamente, como testemunho de boa e desinteressada amizade.

FonteMARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume IV, pp. 103-108

 


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