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PARADA DO CORGO

viveiro em 1987


Memórias - Parada do Corgo - Quaresma

por cunha ribeiro, Quinta-feira, 09.03.17

QUARESMA

 

Na maioria das vezes, era vê-lo calado, meio arreliado co`a vida. Mas no momento menos esperado subia-lhe pela garganta, já húmida de um mosto de Oura, um humor impiedoso, quase escatológico. Mesmo tratando-se de assuntos religiosos. Depois de um terço mais longo que metesse um pai nosso ou uma avé maria a cada um de vários santos e santas, o Geraldo atirava a matar:

- Madrinha, jonga-os!

À volta da lareira, soava uma risada espontânea e quase geral.

- Jongo o quê, seu safado?

Sempre a dar o exemplo no uso da linguagem sem o vulgar palavrão, a Madrinha sabia conter-se, mesmo quando irritada, usando eufemismos.

- Jonga os santos, Madrinha!

- Ora, vai mas é passear!

Via-a chateada, e já se calava.

Porém, quando, em vez da Srª da Luz ou de São Bartolomeu, o assunto subisse à esfera de Cristo, o respeito era muito bonito:

- Na quinta e sexta-feira santas, nem os passarinhos se mexem nos ninhos! (Dizia, convicto).

Era uma imagem cheia de força, que impunha respeito, mesmo ao irreverente Geraldo. Uma mensagem que, dita em tom grave a uma criança, poderia causar-lhe sintomas de apoplexia.

Aos adultos mais crentes causava temor. Era como se uma voz do além ecoasse aos ouvidos: "Ouve, homem de Deus, nestes dois meios-dias não podes lavrar, nem cavar. Vai à capela, e reza. Só podes pensar em Jesus e na morte. Lembra-te que és pó, terra, cinza, nada!".

A verdade é que a tarde de quinta e a manhã de sexta eram religiosamente guardadas, logo que na torre da Igreja soasse o meio-dia:

- Pára aí! (Ordenava meu pai, nem que fosse a meio de um rego da lavra).

Para mim, era uma ordem divina. Por ser ser divinal e bem-vinda. Acabava ali, de repente, o sacrifício de andar de aguilhada na mão, à frente de uma junta de vacas, dezenas de vezes, de um extremo ao outro da terra. É certo que me esperava o terço, a missa e as confissões da novena, mas que era isso ao pé de quilómetros à frente de uma parelha de bois a rasgar torrões num lameiro? Nem o jejum ao jantar e à ceia era sanção tão severa.

- Comei hoje melhor, que amanhã jejuamos (Alertava, minha mãe)

- E a bula? Não pagaram a bula? (Reclamávamos nós)

- Pagamos, mas não dispensa este dia.

A bula era uma forma "ardilosa" de a “Igreja” arrancar mais uns tostões ao “povo de Deus”. Pagando a bula, já a ementa, às sextas durante a Quaresma, podia continuar a saber a carne de porco, esse prato tão do agrado das gentes da aldeia.

Meu pai cumpria escrupulosamente o jejum da carne, mas não perdoava a posta de bacalhau, bem regada em azeite de Vila Flor. Para ele, um consolo ainda melhor que um prato bem recheado de carne. A nós, por ser mais em conta, calhava-nos carapau ou conserva, se a houvesse. E para aguentar até tarde, uma grande malga de caldo migada com broa. Sopa? Isso era iguaria que só se comia em casa da “burguesia”.

 
 
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Comentários
Jorge Costa
 
Jorge Costa Gosto sempre do seu geito prosaico de escrever. Um abraço de um super amigo.Jorge Costa
Celina Gonçalves Branco
 
Celina Gonçalves Branco Eu, sempre que leio,o seu blogue revejo me a mim mesma,no tempo que passei na aldeia de Souto
Antonio Correia
 
Antonio Correia Olá.
Porque o amigo não edita um livro com essas Cronicas que são deleciosas?
Francisco Da Cunha Ribeiro
 
Francisco Da Cunha Ribeiro A sugestão é interessante e eu fico contente que haja quem aprecie. Só que o investimento é enorme e o retorno duvidoso...kkk Mas opbrigado pelo apoio.
Francisco Da Cunha Ribeiro
Escreve uma resposta...
 
Marieta Sousa
 
Marieta Sousa Só se for de nome, porque o caldo era bem mais substancial é saudável que a chamada sopa da burguesia. Eu lembro - me disto tudo. Era mesmo assim, cumpria- se o jejum, e ainda se pagava a bula. Para mim era uma delícia, como não gostava de carne, o bacalhau era uma maravilha, ou então uma sardinha.
Maria Barreiro
 
Maria Barreiro Como o tempo mudou agora não se faz nada disso.
Marieta Sousa
 
Marieta Sousa Ainda se faz, principalmente no interior . No entanto a igreja também mudou. Eu já ouvi vários párocos dizerem que o que interessa é o interior de ser humano e não o comermos isto, ou aquilo.
Paulo Silva
 
Paulo Silva Os tempos mudam e as pessoas mudam ... Ha uns sèculos atràs era jejum todas as sextas do ano em certos paises catòlicos. Hoje em dia hà cada vez menos pessoas que se importam com isso`!
Fernanda Castro Almeida Almeida
 
Fernanda Castro Almeida Almeida Parabéns mais uma vez pela descrição que faz do tempo da Quaresma Eu tbm vivi tudo isso
Julia Carvalhas
 
Julia Carvalhas Adorei mais este conto que me transportou por alguns instantes a tempos idos... soube tão bem.
Francisco Da Cunha Ribeiro respondeu · 1 resposta
Gomercindo Silva
 
Gomercindo Silva Francisco estás um escritor a sério. Todos os dias ocupas uns minutos do meu dia e com temas mt interessantes. Abraço amigo.
Francisco Da Cunha Ribeiro
 
Francisco Da Cunha Ribeiro Antes de mais, obrigado pelas tuas palavras que, conhecendo-te como conheço, sei serem sinceras. Achas que deva publicar isto? Tu que tens alguém na família que já ganhou um prémio literário tens a palavra ( kkk)

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