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PARADA DO CORGO

viveiro em 1987


FELICIDADE

por cunha ribeiro, Quarta-feira, 17.09.14

 

 Sei que este é o tema do texto anterior. Excelente texto - mais um - do nosso colaborador Agostinho Ribeiro. Mas é um tema tão forte, tão importante para a nossa vida, que julgo não saturar quem nos lê falando nele de novo.

 Porém, serei breve. É que eu só quero dizer que sou feliz, apesar de... duas ou três coisas que quase engasgam a minha felicidade. 

 Na verdade, eu sinto felicidade. Isto é, sou feliz, apesar de já não ter o meu pai sentado no escano, com o colo quente a fazer de almofada ao meu corpo deitado; sou feliz, apesar de na minha memória estremecer ainda a vida ceifada de um irmão jovem; sou feliz, apesar de  me ter magoado o anúncio cru, da perda , inevitável, da perna mirrada de minha mãe.

 Será absurdo alguém ser feliz, depois destas perdas? Poderá parecer. Dissesse eu que era "mesmo" feliz... Mas não disse. Disse apenas que era feliz ... Falta-me o pedaço de felicidade que está no "mesmo" de quem é  "mesmo" feliz. 

 Para eu ser mesmo feliz não podia sentir estas perdas que nomeei.  Assim sou só...feliz.  Apesar de tudo, ainda bem que sou "só feliz"... Porque se o não fosse, era infeliz ... E ser infeliz é muito pior. 

 Haverá alguma razão para eu, em tais circunstâncias,  poder ser feliz?

 Sim, várias: uma delas é que, embora tenha perdido um irmão, ainda desfruto o prazer do convívio com os que restam; outra, porque embora tenha perdido meu pai, posso ter a presença física de minha mãe que, mesmo perdendo uma perna, teve a sorte de ter encontrado quem lhe fizesse esquecer essa ausência: várias "pernas" fantásticas que diariamente a ajudam, e a acarinham. E isto - quase só isto - me bastaria para ser feliz, não sobrassem ainda outras boas razões para o ser.

 Sou, portanto, feliz. Não supremanente, não totalmente, feliz.  Mas feliz, com esta felicidade, assim como ela é - tangível, possível, real.

 A ideal, essa deverá estar na posse dileta dos deuses. 

 

FCR

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às 21:32

O SEMINARISTA

por cunha ribeiro, Quinta-feira, 11.09.14

 

 

 

Uma lição Improvável

 

Onze anos de vida junto da avó e da mãe, quase todos sem pai, numa submissão total aos mandamentos da Igreja, tornaram-no tímido e inexperiente. Sexo era tabu. Pior, era pecado. Estava escrito algures na cabeça de cada um: Proibido perguntar ou tocar no assunto.  Experimentar só lá pra depois da tropa.

O certo é que, depois, no seminário a timidez agravou. Aumentou com o convívio repentinamente numeroso e “forçado” com estranhos vindos de lugares improváveis. E cresceu com a nova e mal aceite sujeição hierárquica.

O Sr Diretor fazia-se respeitar à base da ironia e da humilhação. Era portanto um bom gestor do sistema. O jovem seminarista tinha-lhe, porém,  mais receio do que respeito. Sentia vergonha de lhe falar, de o olhar até. Evitava-o quanto podia, e como sabia. Nos passeios, refugiava-se na retaguarda da fila; Nas aulas fazia que lia ou escrevia, enquanto o Sr Diretor explicava. Confessar-se, a Ele… nunca esteve nas suas cogitações.

Um dia estava o pequeno seminarista na aula do Subdiretor. Este, do alto do estrado, olhou-o e disse: “ O Sr Diretor está à tua espera no gabinete”.

O tímido seminarista estremeceu, ficou pálido, levantou-se titubeante, e lá foi bater à porta do gabinete do Diretor.

- Entre!

Entrou. Ficou de pé à frente da secretária, a olhar o cinzeiro e outros objetos.

- Sabes por que te chamei cá?

Levantou um pouco a cabeça, olhou na direção da janela, e respondeu:

- Não, Sr … Sr. Diretor

- Por causa das tuas notas. São baixas. Sobretudo a de Matemática. (Era a única negativa. Tinha catorze a Latim, a Ciências, e a Comportamento. Às outras, onzes e dozes).

O seminarista ouviu então uma estranha pergunta:

- Tu já mexes com certas partes do corpo?

Era o mexias. Nunca até aí o seminarista tivera qualquer experiência de auto-satisfação sexual.  Por isso não percebeu a pergunta. Apenas balbuciou um “não Sr. Diretor…”, como se estivesse no confessionário a negar um pecado.

Seguiu-se uma teoria espantosa sobre os efeitos da líbido no rendimento escolar. O Sr. Diretor estava convicto que o “mau” aproveitamento escolar do Seminarista poderia ter explicação no desperdício excessivo e escusado de esperma, pois, na sua ideia, o pequeno seminarista , em vez de estudar, passaria esse tempo  a  “descascar a banana”, como quem diz, a masturbar-se.

Entretanto, o tímido Seminarista,  à beira da lágrima e do soluço, foi chamado, com toda a ternura, pra junto do Sr Diretor, que, ofegante e concentrado,  continuou a sua incrível lição:

- É que o nosso cérebro funciona à base de energia, percebes? E essa energia é canalizada através desse líquido … estás a entender?  E quanto mais líquido tivermos armazenado, mais inteligentes ficamos, compreendes?

Entretanto, batem à porta … “alguém precisava urgentementede falar com o Sr Diretor”.

Não se recorda o Seminarista quem era. Lembra-se que sentiu uma sensação agradável, de libertação. De alívio.

Depois, muito depois, pensou: " Será que era um enviado de Deus com o gravíssimo encargo de travar o pecado iminente do Sr Diretor?"

 

 

 A.V.

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às 15:37

A Minha Primeira Vez

por cunha ribeiro, Sexta-feira, 20.06.14

 

 Você já experimentou falar da sua primeira vez, amigo leitor? Deve ter vergonha, suponho. Por isso não disse ainda a ninguém como foi. Mas você já imaginou como seria interessante revelar  tudo isso que você fecha a sete chaves num segredo egoísta e nada didático? Por que é que você é assim tão fechado? Tão reservado ao ponto de ocultar um facto tão importante da sua vida? Vá lá ganhe coragem e diga a toda a gente como foi a sua primeira vez. Não diga que não teve a sua primeira vez. Toda a gente tem.

 E se fosse corajoso começava pelo princípio, não omitia essa parte. Que é no fundo a parte mais melindrosa, aquela em que nos descobrimos mais estúpidos e ignorantes.

 Lá está você a desafiar-me:

 - Bonito, está aí armado em quê? Não conta a sua primeira vez e queria que eu a contasse, não ? 

Descanse caro leitor. Eu não sou opaco como você. Sou transparente. Conto tudo, digo tudo.

Oiça pois o que me aconteceu quando, naquela tarde de verão, tudo se me revelou pela primeira vez. Note que é a primeira vez que eu conto isto em público, o que o faz de si um privilegiado. Uma testemunha do meu destino, em primeira mão. 

 Sempre até aí eu morara no rés do chão. Nesse dia. Melhor, nessa tarde, pela primeira vez na minha vida,  subi a um sétimo andar. Não imagina o leitor como foi aquela minha primeira inefável subida aos céus. A exaltação interior. A sensibilidade, o suor, o suor... O medo! O absurdo receio de falhar no momento certo. De não saber exatamente onde colocar o dedo, de acertar no momento em que deveria entrar e sair. Eu e ela ali sós. Eu com a  chave na mão sem saber quando abrir nem fechar.  A transpiração a aumentar; a respiração ofegante; o raciocínio meio à deriva. E eu cada vez mais tenso, mais suado, mais intranquilo.

 Entretanto, de andar em andar, aquilo ia subindo, subindo. Até que, de repente, tudo paralisou à minha volta, e em mim próprio. Tentei controlar a respiração. Percebi, contente, que havia tocado no ponto certo. Uma espécie de ponto G. O único sítio onde deveria tocar . Por isso chegara o momento. O momento da absoluta coincidência entre o desejo e a emoção. Da união do gesto e  da ação. O princípio encontrou ali o seu fim,e  os difíceis preliminares tiveram um desfecho feliz. 

 Saíra no andar certo. O sétimo. Há pouco um sítio distante, quase inatingível. Foi um inferno a minha primeira vez num Elevador, a braços com a dúvida. Mas o final foi feliz. E a partir daí nunca mais foi difícil subir ou descer dentro daquela máquina.

 

Afonso Valtique 

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às 01:33


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