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ela, 2. antonio candido . 8341659518_ecc98db9f2_m . Cândida dos Reis Dias Pinto . minha foto. agostinho ribeiro . agostinho . francisco gomes .

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PARADA DO CORGO

viveiro em 1987


Conto de Natal

por cunha ribeiro, Terça-feira, 18.11.14

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I.

Chamava-se Zé Maria. Era padeiro numa aldeia de Trás-Os-Montes. O seu pão era conhecido em todo o concelho como "o melhor das redondezas". Além de grande profissional, era um homem bom, o Zé Maria. Ao ponto de todos os sábados cozer uma fornada de bolos para a rapaziada da aldeia que ia jogar a bola.

No cimo da povoação, viviam dois pobrezinhos. Um num casebre feito de pedras mal engendradas e um telhado de colmo já meio podre. Era um homem já entradote, barba comprida branca, com uma barriga quase tão grande como a da  parede traseira do velho casebre. Podia ser palhaço de circo caso quisesse, pois tinha o dom e o corpo apropriados para fazer rir plateias. Mas não, preferia estender a mão pelas aldeias de saco às costas . Não sabia ser de outra maneira.

A uma centena de metros, vivia uma pobre mulher, meio louca, que passava a vida a apanhar farrapos, cartões e latas pelas ruelas da aldeia. Quando passava perto do "barrigudo" (chamava-lhe assim, e outras vezes "velhote", a meter-se com ele), este olhava pra ela, levantava os ombros, e dizia baixinho: “ Enfim, por que razão os pobres não poderiam ter as suas bizarrias”. O certo é que ela o visitava de vez em quando. E muito embora ele soubesse que a tratante lhe desviava uns tostões enquanto dormia, sempre ia admitindo que uma amizade, mesmo pouco sincera, vale mais que não ter nenhuma. E quando se é pobre e doente que remédio senão aceitar desgraças menores.

Entretanto vinha aí uma noite diferente das outras, a noite de consoada. Só que, pensando bem, que poderia o Natal mudar no ram ram diário daquelas vidas tão miseráveis? Mais frio, sim, que o sentia bem pela espinha. Muito mais que na véspera. E também a alegria. Viam-se sorrisos na rua, rostos inesperadamente felizes. E sem querer, de repente,  até lhe vieram à memória recordações de criança. E se tudo corresse bem, depois da missa do galo, as pessoas podiam ficar mais generosas… Eis tudo o que poderia mudar na sua vida naquele dia.

 O Velhote mergulhara nestes pensamentos, enquanto se preparava para daí a algumas horas ir para junto da porta da entrada da Igreja, de boina na mão. Entretanto, ouve uma voz:

Era o Zé maria, o padeiro, a esfregar as mãos para queo frio o não regelasse, e a convidá-los para cearem com ele:

- Tenho lá uma ceia que é um regalo! Venham daí!

A companheira pobre levantou-se de um salto e foi logo pegar num saco, pensando já nas sobras, e, quem sabe, se não poderia, numa distracção, juntar à comida um ou dois pratos, garfos e facas… O que viesse à rede...

O Velhote, seguia atrás timidamente…

Não faltava nada naquele banquete! Entradas à discrição; molhos e carnes à rengalheira, e de todas as qualidades. Sobremesas variadas e saborosíssimas. E para que tudo isto deslizasse na perfeição, os vinhos eram de primeira água .. e até havia vinho espumoso e champanhe de marca!

 

II

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Já bem comidos e bem bebidos, sentaram-se um pouco à lareira. Daí a pouco era ver o Barrigudo a ressonar como um porco. O Padeiro, Zé Maria, vermelho como um tomate, desafiou a  outra a ir ver "uma relíquia"  que tinha na cave. 

Abriu a porta, e foi um assombro: Corvos embalsamados pareciam esvoaçar encostados ao teto. Chifres de várias cores e espécies espalhados pelas paredes grossas e escuras.

 O velho padeiro deixou-se, então, embalar numa vertigem de confissões .

- Olhe, minha boa amiga, não quero que se assuste com o que lhe vou confessar, mas eu já fui um diabo do inferno. Não o Lúcifer … antes fosse, esse grande diabo, mas não ... Fui um pobre diabo, apenas. Usava uma forquilha, pés de cabra, e estava entregue do forno. Gostava do que fazia, mas não suportava o sofrimento dos condenados. Era um bom diabo, por isso não podia ser grande diabo. Percebe o que quero dizer? Era já um apaixonado de bolos e pão. Usava as instalações e os utensílios necessários à minha qualidade de diabo, mas fazia pizzas, pães, sêmeas, broas ...Como era um bom diabo inventei uma pomada que protegesse os condenados no churrasco obrigatório. Para mim era ponto de honra: ninguém teria razões para reclamar da minha hospedagem infernal. Cozinhava o melhor que sabia e alimentava bem toda a gente. Todos saciados, todos felizes. Sucede que a fama espalhou-se. Afinal o Inferno nem era assim tão mau. O Purgatório começou, ele sim, a ser um Inferno. E até no paraíso se começou a ter vontade de mudar de aposentos. Foi então que Lúcifer, o manda chuva de todo o Inferno, me convocou. Mal me viu à sua frente troou: "Zé Maria, és demasiado bom diabo para seres bom diabo. O Inferno não pode ser uma hospedaria. Tem que ser um lugar de sofrimento e expiação de pecados. Vou ter de te despedir. Vais para a terra e lá fazes o que quiseres e como quiseres. Mas, como prova da minha estima por ti, ofereço-te esta masseira". - E foi assim que eu me tornei padeiro minha boa amiga.

 

III

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O Barrigudo continuava, na sala, a dormir. A amiga, atenta a ouvir a história de Zé Maria, pergunta:

- E para que serve essa coisa?
- A masseira ? !
- Sim?
- Ora, trata-se de uma masseira mágica. Vem ver com os teus próprios olhos …

Era uma masseira aparentemente vulgar. A tampa estava fechada à chave. Havia três chaves penduradas na parede : uma amarela, outra verde, e ainda outra, vermelha…
- Quando utilizo a chave amarela, ao abrir a masseira, só vejo ouro... joias raras, lindíssimas. Se abrir com a segunda, a masseira parece uma montra de padaria, cheia de pão de toda as espécies ;
- E a vermelha?
- Ah, essa só me diz respeito a mim !

A seguir voltaram para a sala. Passado pouquíssimo tempo o Padeiro começou a dormir profundamente, junto de Barrigudo...

Logo que apanhou o "Bom Diabo" a dormir, a amiga de Barrigudo pegou no saco e desceu novamente à cave. Retirou a chave amarela e abriu a masseira mágica... De facto, lá estava ela repleta de joias lindíssimas!  Despejou todo o ouro todo no saco. Depois, pegou na chave verde e abriu outra vez a masseira mágica. Estava tão cheia de pão e de bolos que não havia espaço para o mais pequeno bolete. Arrabanhou o pão todo e meteu-o no saco.

Mas a sua gula era infinita. Ávida de tudo, queria mais. Sempre mais. Tinha riqueza, mas faltava-lhe alcançar algo mais importante: o poder! Já se imaginava presidente da Câmara , e mesmo Primeira Ministra.  Porquê parar por ali? Por que razão não tentaria ser senhora do mundo? Imperatriz do Universo? Deusa?

 A tentação tolheu-lhe a razão e eis que resolve pegar na chave vermelha. A chave secreta e privada de Zé Maria. Com o coração aos saltos,  meteu-a na fechadura ... rodou ansiosa para a a sua esquerda ...abriu ...e eis que um vulto horrendo surge à sua frente. É Lúcifer, o todo poderoso Satanás, dono do Inferno. A chave vermelha tinha sido uma oferta deste ao bom Diabo para, no caso de se arrepender, poder voltar ao Inferno.

Quando acordou, Barrigudo estranhou ver a porta da cave escancarada. Foi ver: estupefacto, deparou com o corpo da amiga estendido no chão, junto de uma montanha de ouro e pão.

- Zé Maria, olhe pra isto! Gritou Barrigudo.

O Bom Diabo acoreu ao apelo de Barrigudo. Atónito, reparou que a chave vermelha desaparecera do sítio. Jamais iria poder regressar ao Inferno. Como o não desejava de todo, deu um salto de alegria.

Barrigudo voltou para casa. Isto é, para o pequeno casebre. Deitou-se e voltou a dormir. Pela manhã, um guarda bateu-lhe à porta. Enviado pelas autoridades o guarda ordenou a Barrigudo que saísse dos seus aposentos e fosse para outro lado viver. Devia levar tudo o que tinha dentro de casa. Barrigudo protestou, dizendo que o colchão não era dele, mas de uma amiga defunta que gostava imenso dele.

- Oiça, se a sua amiga morreu, o colchão agora é seu. Disse o guarda, a galhofar. - Você era afinal o seu parente mais próximo. Despache a herança, homem!

 Os guardas foram-se embora. Barrigudo juntou tudo o que tinha. Mas, ao pegar no colchão, este rompeu pela costura, e pelo buraco começaram a escorregar moedas e notas. Quanto mais levantava mais moedas e notas caíam. No chão sujo do casebre de Barrigudo jazia agora uma riqueza imprevista, um monte de moedas e notas.  A amiga era, afinal,  milionária!

Barrigudo não se fez rogado, seguiu o conselho do guarda, e tornou-se o único herdeiro daquela riqueza.Passou a vestir-se como um lord, e a ser admirado e respeitado por todos. Nada de estranhar: como não admirar um homem que tem à sua disposição meios mais que suficientes para fazer o bem, e cuja barriga impõe por si só grande respeito?

Quanto ao Bom Diabo, Zé Maria,  mudou, logo que pôde, de residência.

 

Fim

 

 

A. V.

 

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às 17:47

O MANUEL REIS, O ZÉ MARIA E A CATAPLANA

por cunha ribeiro, Sexta-feira, 05.03.10

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às 19:39

Capela de Parada de Aguiar e Rua do Arco, com ef. especiais


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